O que é? que póde ser? A reacção
Convulsionando o corpo, e a razão
Subjugando-me, por demais vencida!
O que é? (Pausa)
É a verdade, Margarida!

Verdade?! E quem responde? Quem me falla?
É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala
Esta mulher aos dons da Natureza?
Sim. Porque se nasceu para a baixeza,
Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto
E pequei, pois agora mesmo eu sinto
Que para o mal o mundo me não doou.
Nem Deus para a baixeza me creou!
Deus, amando, só cria para amar,
E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,{50}
Apenas a sonhar, sim, porque alguem
Sepultou do meu sonho todo o bem!
Eu nasci para amar, e amei; amei
Quanto pude ante a bôa e pura lei
Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava,
Disse-me um dia que isso não passava
De um mytho, e foi-se andando na procura
D'aquillo que á pobreza salva a agrura;
Foi-se andando na busca de riqueza,
Porque eu era pobre, e isso se despreza!
E é então, é então que o meu amor
Se arrebata nas garras do impudor;
É então, que me afundo nas camadas
Que alimentam as tristes depravadas!
Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,
Que por causa de amor tão puro e santo.
Busquei embriagar-me n'esta orgia,
Para que o grande Deus a ninguem cria!

(Pausa)

Eu a chorar!... e lagrimas ardentes
Deslisando nas faces reviventes
De vergonha! Porque? E que fiz eu?
Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;
Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,
E nada, nada pela inconsciencia.
E porque alguem, alguem me aniquilou,
Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!

(Pausa)

Eu a chorar! e lagrimas ardentes,
Velando os olhos bem reminiscentes
Do que vi!...

E que vi eu?... A mulher,
A mulher como ella é e deve ser.
Vi-a altiva e com toda a magestade
Destruindo o insulto á sombra da verdade!
Vi-a repudiando com nobreza
Os feitos da maldade e da torpeza!
Vi-a... vi-a tomando nos seus braços
O fructo que proveio de devassos!
Vi-a, evocando graças divinaes
N'uma orchestra de sons tão maternaes
P'rá criança que a minha embriaguez
Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!{51}
E como tudo ainda fosse pouco,
Em paga d'um agir mau, vil e louco,
Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!
Pedir que me enviasses lá dos céus
O perdão!

Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...
Fiz... o que faz mulher desnaturada!

(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)

SCENA SEGUNDA