LXIX.

Ferido sem ter cura perecia
O forte e duro Télepho temido
Por aquelle que na agua foi metido,
E a quem ferro nenhum cortar podia.
Quando a Apollineo Oraculo pedia
Conselho para ser restituido,
Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido
Por quem o ja ferira, e sararia.
Assi, Senhora, quer minha ventura;
Que ferido de ver-vos claramente,
Com tornar-vos a ver Amor me cura.
Mas he tão doce vossa formosura,
Que fico como o hydropico doente,
Que bebendo lhe cresce mór seccura.[{36}]

LXX.

Na metade do ceo subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavão
O verde pasto as cabras, e buscavão
A frescura suave da agua fria.
Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavão:
O módulo cantar, de que cessavão,
Só nas roucas cigarras se sentia.
Quando Liso pastor n'hum campo verde
Natercia, crua Nympha, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.
Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama? (suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

LXXI.

Ja a roxa e branca Aurora destoucava
Os seus cabellos de ouro delicados,
E das flores os campos esmaltados
Com crystallino orvalho borrifava;
Quando o formoso gado se espalhava
De Sylvio e de Laurente por os prados;
Pastores ambos, e ambos apartados,
De quem o mesmo amor não se apartava.
Com verdadeiras lagrimas Laurente,
Não sei, (dizia) ó Nympha delicada,
Porque não morre ja quem vive ausente;
Pois a vida sem ti não presta nada.
Responde Sylvio: Amor não o consente:
Que offende as esperanças da tornada.[{37}]

LXXII.

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquella alma me apparece,
Que para mi foi sonho nesta vida.
Lá n'huma soidade, onde estendida
A vista por o campo desfallece,
Corro apoz ella; e ella então parece
Que mais de mi se alonga, compellida.
Brado: Não me fujais, sombra benina.
Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo,
Como quem diz, que ja não póde ser)
Torna a fugir-me: torno a bradar: Dina...
E antes que diga mene, acórdo, e vejo
Que nem hum breve engano posso ter.

LXXIII.

Suspiros inflammados que cantais
A tristeza com que eu vivi tão ledo,
Eu morro e não vos levo, porque hei medo
Que ao passar do Letheio vos percais.
Escriptos para sempre ja ficais
Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
Como exemplo de males; e eu concedo
Que para aviso de outros estejais.
Em quem, pois, virdes largas esperanças
De Amor e da Fortuna, (cujos danos
Alguns terão por bem-aventuranças)
Dizei-lhe, que os servistes muitos anos,
E que em Fortuna tudo são mudanças,
E que em Amor não ha senão enganos.[{38}]