Contente vivi ja, vendo-me isento
Deste mal de que a muitos queixar via:
Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria
Discordia e semrazão, guerra e tormento.
Enganou-me co'o nome o pensamento:
(Quem com tal nome não se enganaria?)
Agora tal estou, que temo hum dia
Em que venha a faltar-me o soffrimento.
Com desesperação, e com desejo
Me paga o que por elle estou passando,
E inda está do meu mal mal satisfeito.
Pois sôbre tantos damnos inda vejo
Para dar-me outros mil hum olhar brando,
E para os não curar hum duro peito.

CCXLIX.

Deixa Apollo o correr tão apressado,
Não sigas essa Nympha tão ufano:
Não te leva o amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.
E quando seja amor, será forçado;
E se forçado for, será teu dano.
Hum parecer não queiras mais que humano
Em hum sylvestre adôrno ver tornado.
Não percas por hum vão contentamento
A vista que te faz viver contente;
Modera em teu favor o pensamento.
Porque menos mal he, tendo-a presente,
Soffrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausencia eternamente.[{126}]

CCL.

Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
Nos valles, e nos montes, teus louvores
Sempre te cantem musicos pastores
Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.
E neste Templo donde manifestas
E repartes agora teus favores,
Com Psalmos, hymnos, e com varias flores
Sejão celebres sempre as tuas festas.
Estes te offreção pés, ess'outros mãos;
D'aquelles pendão sôbre os teus altares
Monstros do mar, de servidão prisões.
Que eu cuidados, enganos e affeições,
Muito maiores monstros, e milhares
Te deixo aqui de pensamentos vãos.

CCLI.

Vi queixosos de Amor mil namorados,
E nenhuns inda vi com seus louvores;
E aquelle que mais chora o mal de amores,
Vejo menos fugir de seus cuidados.
Se das dores de Amor sois mal tratados,
Porque tanto buscais de Amor as dores?
E se tambem as tendes por favores,
Porque dellas fallais como aggravados?
Não queirais alegria achar alg~ua
No Amor, porque he composto de tristeza,
Na fortuna que acheis mais agradavel.
Nella e nelle achei sempre a mesma l~ua,
Em quem nunca se vio outra firmeza,
Que não seja a de ser sempre mudavel.[{127}]

CCLII.

Se lagrimas choradas de verdade
O marmore abrandar podem mais duro,
Porque as minhas que nascem de amor puro
Hum coração não rendem a piedade?
Por vós perdi, Senhora, a liberdade,
E nem da propria vida estou seguro.
Rompei desse rigor o forte muro,
Não passe tanto avante a crueldade.
Ao prezar de desprezos dae ja fim:
Não vos chamem cruel; nome devido
A quem se ri de quem suspira e ama.
Abrandai esse peito endurecido,
Por o que toca a vós, ja não por mim,
Que eu aventuro a vida, e vós a fama.

CCLIII.