[ECLOGA IV.]

[INTERLOCUTORES.]

FRONDOSO e DURIANO.

Cantando por hum valle docemente
Descião dous pastores, quando Phebo
No reino Neptunino se escondia:
De idade cada qual era mancebo;
Mas velho no cuidado, e descontente
Do que lh'elle causava parecia.
O que cada hum dizia
Lamentando seu mal, seu duro fado,
Não sou eu tão ousado,
Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:
Porque se a minha ruda
Frauta deste favor vosso for dina,
Posso escusar a fonte Caballina.
Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso;[{190}]
Em vós tenho Calliope e Thalia;
E as outras sete irmãas, co'o fero Marte;
Em vós deixou Minerva sua valia;
Em vós estão os sonhos do Parnaso;
Das Pierides em vós s'encerra a arte.
Com qualquer pouca parte,
Senhora, que me deis d'ajuda vossa
Podeis fazer qu'eu possa
Escurecer ao sol resplandecente:
Podeis fazer que a gente
Em mi do grão poder vosso s'espante;
E que vossos louvores sempre cante.
Podeis fazer que cresça d'hora em hora
O nome Lusitano, e faça inveja
A Esmirna, que d'Homero s'engrandece.
Podeis fazer tambem que o mundo veja
Soar na ruda frauta o que a sonora
Cithara Mantuana só merece.
Ja agora me parece,
Que podem começar os meus pastores
A cantar seus amores.
Porqu'inda que presentes não estejão
As qu'elles ver desejão,
Mudança de lugar, menos d'estado,
Não muda hum coração do seu cuidado.
Ja deixava dos montes a altura,
E nas salgadas ondas s'escondia
O sol, quando Frondoso e Duriano,
Ao longo d'hum ribeiro, que corria
Por a mais fresca parte da verdura
Claro, suave e manso, todo o ano,[{191}]
Lamentando seu dano,
Vinhão ja recolhendo o manso gado.
Hum estava callado,
Em quanto hum pouco o outro se queixava;
Apos elle tornava
A dizer de seu mal o que sentia;
E em quanto este fallava, aquelle ouvia.
Vinhão-se assi queixando aos penedos,
Aos sylvestres montes e á aspereza,
Que quasi de seus males se doião.
Alli as pedras perdião a dureza;
Alli correntes rios estar quedos,
Promptos ás suas queixas, parecião.
Somente as que podião
Estes males curar, pois os causavão,
O ouvido lhes negavão,
Por perderem de todo a esperança:
Mas elles, que mudança
D'amor com tantos damnos não fazião,
Com ellas fallando inda, assi dizião:
FRONDOSO.
Isto he o que aquella verdadeira
Fé, com que t'amei sempre, merecia,
Sem nunca te deixar hum só momento?
Como (cruel Belisa) t'esquecia
Hum mal, cuja esperança derradeira
Em ti só tinha pôsto o seu assento?
Não vias meu tormento?
Não vias tu a fé, com que t'amava?
Porque não t'abrandava
Est'amor, que me tu tão mal pagaste?[{192}]
Mas pois ja me deixaste
Co'a esperança de ti toda perdida,
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Se os males que por ti tenho soffrido
(Oh Silvana, em meus males tão constante!)
Quizesses que algum'hora te dissera;
Inda que, qual durissimo diamante,
Fôra o teu cruel peito endurecido,
Creio que a piedade te movêra.
Ja agora em branda cera
Os montes são tornados e os penedos;
E os rios, qu'estão quedos,
Sentírão meus suspiros, minhas queixas.
Tu só, cruel, me deixas,
Qu'es mais, que montes e penedos, dura,
E fugitiva mais qu'a fonte pura.
FRONDOSO.
Ond'está aquella falla, que sohia
Só com seu doce tom, que me chegava,
Avivar-me os espiritos cansados?
Onde está o olhar brando, que cegava
O sol resplandecente ao meio dia?
Ond'estão os cabellos delicados,
Que ao vento espalhados
Escurecião o ouro, a mi matavão;
E a quantos os olhavão,
Causavão tambem novos accidentes?
Porque, cruel, consentes
Qu'outro goze da gloria a mi devida?
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.[{193}]
DURIANO.
Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,
Se não fosse esperar que morte dura
Me venha emfim a dar a saudade.
Vejo faltar-me a tua formosura;
A vontade me diz que desespere,
Contradiz-me a razão esta vontade.
Diz qu'em huma beldade,
Em quem mostrou o cabo a natureza,
Não ha tanta crueza,
Qu'hum tão constante amor desprezar queira,
E fé tão verdadeira;
Mas tu, que de razão jamais curaste,
Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste.
FRONDOSO.
A quem, Belisa ingrata, t'entregaste?
A quem déste, cruel, a formosura,
Qu'a meu tormento só, só se devia?
Porqu'huma fé deixaste, firme e pura?
Porque tão sem respeito me trocaste
Por quem só nem olhar-te merecia?
O bem que t'eu queria,
E que não perderei se não por morte,
Não he de maior sorte,
Que quanto a cega gente estima e preza?
Só a tua crueza
Foi nisto contra mi endurecida.
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Levaste-me o meu bem n'hum só momento;
Levaste-me com elle juntamente[{194}]
De cobrá-lo jamais a confiança:
Deixaste-me em lugar delle sómente
Huma contínua dor, hum grão tormento,
Hum mal, de que não póde haver mudança.
Tu, qu'eras a esperança
Dos males que, cruel, tu me causaste,
De todo te trocaste,
Com Amor conjurada em minha morte.
Porém se a minha sorte
Consente que por ti seja causada,
Morte não foi mais bem-aventurada.
FRONDOSO.
Não nasceste d'alguma pedra dura;
Não te gerou alguma Tigre Hyrcana;
Não te criaste, não, entre a rudeza,
A quem, cruel, sahiste deshumana?
No ceo formada foi tal formosura,
Onde a mesma brandura he natureza.
Pois, logo, essa dureza
Donde teve princípio, ou a tomaste?
Porque, dura, engeitaste
De hum verdadeiro amor, que tu bem vias,
A fé, que conhecias,
Por outra de ti nunca conhecida?
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Vai-se co'o seu pastor o manso gado,
Porque d'amor entende aquella parte,
Qu'a natureza irracional lh'ensina.
O rustico leão sem algum'arte,
Do natural instincto só ensinado,[{195}]
Aonde sente amor, logo se inclina.
E tu, que de divina
Não tens menos queVenus e Cupido,
Porque sequer co'o ouvido
Hum amor verdadeiro não soccorres?
Ah! porque te não corres
De que o leão te vença em piedade,
Se não te vence Venus na beldade?
FRONDOSO.
A mi não me faltava o que se preza
Entre os celestes deoses, que formárão
A tua mais que humana formosura:
Em mi os voluntarios ceos faltárão;
Em mi se perverteo a natureza
D'huma cruel formosa creatura.
Mas, pois, Belisa dura,
Que do mais alto ceo a nós vieste,
E em teu peito celeste
Hum tal contrário pôde aposentar-se,
Não he contrário achar-se
Tamanha fé tão mal agradecida.
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Por ti a noite escura me contenta;
Por ti o claro dia m'aborrece;
Abrolhos me parecem frescas flores;
A doce Philomela m'entristece:
Todo contentamento m'atormenta
Com a contemplação de teus amores;
As festas dos pastores,
Que podem alegrar toda a tristeza.[{196}]
Em mi tua crueza
Faz que o mal cada hora vá dobrando.
Oh cruel! até quando
Ha de durar em ti tal pensamento,
E a vida em mi, que soffre tal tormento?
FRONDOSO.
Fugiste d'hum amor tão conhecido,
Fugiste d'huma fé tão clara e firme;
E seguiste a quem nunca conheceste,
Não por fugir d'amor, mas por fugir-me;
Pois bem vês, quanto eu tinha merecido
Esse amor que tu a outro concedeste.
A mi não me fizeste
Alguma sem razão; que bem conheço
Que tanto não mereço:
Fizeste-a áquelle bem firme e sincero
Que sabes que te quero,
Em lhe tirar a gloria merecida.
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Cresce cad'hora em mi mais o cuidado,
E vejo qu'em ti cresce juntamente
Cad'hora mais de mi o esquecimento.
Oh Silvana cruel! porque consente
Esse peito formoso e delicado
Que s'esqueça hum tão aspero tormento?
Tal aborrecimento
Merece hum capital teu inimigo:
Não eu, que só comtigo
Estou contente, e nada mais desejo,
Se algum'hora te vejo.[{197}]
Tu es hum só meu bem, huma só gloria,
Que nunca se m'aparta da memoria.
FRONDOSO.
Olhos, que vírão tua formosura;
Vida, que só de ver-te se sostinha;
Vontade, qu'em ti'stava transformada;
Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha,
Tão unida comsigo, quanto a pura
Alma co'o debil corpo está liada;
E que agora apartada
Te vê de si com tal apartamento,
Qual será seu tormento?
Qual será aquelle mal que t~ee presente?
Maior he que o que sente
O triste corpo em última partida.
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Regendo em outro tempo o manso gado,
Tangendo a minha frauta nestes vales,
Passava a doce vida alegremente:
Não sentia o tormento destes males;
Menos sentia o mal deste cuidado;
Que tudo então em mi era contente.
Agora não somente
Desta vida suave m'apartaste.
Mas outra me deixaste,
Que ao duro mal que sinto ca no peito,
Me t~ee ja tão affeito,
Que sinto ja por gloria a minha pena,
Por natureza o mal, que me condena.[{198}]
FRONDOSO.
Juntamente viver compridos anos,
Os fados te concedão, que quizerão
Ajuntar-te com tal contentamento.
Pois os bens para ti todos nascêrão,
Nascêrão para mi todos os danos,
Logra tu tua gloria, eu meu tormento.
Nenhum apartamento,
Belisa, me fara deixar d'amar-te;
Porqu'em nenhuma parte
Poderás nunca estar sem mi hum'hora.
Consente pois agora,
Qu'em pago desta fé tão conhecida,
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Veja-t'eu, crua, amar quem te desame,
Porque saibas que cousa he ser amada
De quem tanto aborreces e desprezas.
Veja-t'eu ser ainda desprezada
De quem tu mais desejas que te ame,
Porque sintas em ti tuas cruezas,
Sintas tuas durezas,
E quanto póde o seu cruel effeito
N'hum coração sujeito.
Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora,
Espero qu'algum'hora
Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te,
Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te.
FRONDOSO.
Mil annos de tormento me parece
Cad'hora que sem ti, sem esperança[{199}]
Vivo de poder mais tornar a ver-te.
A vida só me dá tua lembrança;
A vida sôbre tudo m'entristece;
A vida antes perdêra, que perder-te.
Mas eu se, por querer-te
Hum bem qu'em ti só t~ee seu firme assento,
Padeço tal tormento,
Qu'esperará de ti quem te desama,
Ou quem ao menos te ama
Com algum falso amor, ou fé fingida?
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Então, cruel, verás se te merece
Com tamanho desprêzo ser tratada
Hum'alma, que d'amar-te só se preza.
Mas como poderás ser desprezada,
Se o menos qu'em ti fóra se parece,
Póde abrandar dos montes a aspereza?
Porque se a natureza
Em ti o remate poz da formosura,
Qual será a pedra dura,
Qu'a teu valor resista brandamente?
Que fará a fraca gente,
Se ao humano parecer não se defende,
E a mesma Venus deosa ao teu se rende?
FRONDOSO.
E pois fé verdadeira, amor perfeito,
Tormento desigual e vida triste,
Junta com hum contino soffrimento,
E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,
Não puderão mover teu duro peito[{200}]
A mostrares sequer contentamento
De ver o meu tormento;
Antes tudo soberba desprezaste,
E a outrem t'entregaste
Por nada me ficar em qu'esperasse,
Senão quando acabasse
A vida, a pezar meu, ja tão comprida,
Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
DURIANO.
Longo curso de tempo, e apartado
Lugar a hum coração, que vive entregue,
Não podem apartar de seu intento.
Porque foges, cruel, a quem te segue?
Não vês que teu fugir he escusado,
Pois sem mim não estás hum só momento?
Nenhum apartamento,
Inda que a alma do corpo se m'aparte,
Poderá ja ausentar-te
Dest'alma triste, que continuamente
Em si te t~ee presente.
Torna, cruel; não fujas a quem t'ama:
Vem a dar vida, ou morte a quem te chama.
A noite escura, triste e tenebrosa,
Que ja tinha estendido o negro manto,
D'escuridade a terra toda enchendo,
Fez pôr a estes pastores fim ao canto,
Que ao longo da ribeira deleitosa
Vinhão seu manso gado recolhendo.
Se aquillo, qu'eu pretendo
Deste trabalho haver, que he todo vosso,
Senhora, alcançar posso;[{201}]
Não será muito haver tambem a gloria
E o louro da victoria,
Que Virgilio procura e haver pretende,
Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.

[ECLOGA V.]

Falla hum só pastor.

A quem darei queixumes namorados
Do meu pastor queixoso e namorado?
A branda voz, suspiros magoados,
A causa porque n'alma he magoado?
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fara devido gasalhado?
Só vós, Senhor famoso e excellente,
Especial em graças entr'a gente.
Por partes mil lançando a phantasia,
Busquei na terra estrella, que guiasse
Meu rudo verso; em cuja companhia
A santa piedade sempre andasse
Luzente e clara, como a luz do dia,
Que o rudo engenho meu m'allumiasse;
E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
Ainda além cumprido o meu desejo.
A vós se dem, a quem junto se ha dado
Brandura, mansidão, engenho e arte,
D'hum esprito divino acompanhado,[{202}]
Dos sobrehumanos hum em toda parte:
Em vós as graças todas se hão juntado;
De vós em outras partes se reparte.
Sois claro raio, sois ardente chama;
Gloria e louvor do tempo, azas da fama.
Em quanto eu apparelho hum novo esprito,
E voz de cysne tal, que o mundo espante,
Com que de vós, Senhor, em alto grito
Louvores mil em toda parte cante;
Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
Entre vaccas e gado petulante:
Que quando tempo for, em melhor modo
Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.
As vãas querellas, brandas e amorosas,
Sejão de vós tratadas brandamente;
Verdades d'alma pouco venturosas,
Sahidas com suspiro vivo e ardente:
Em vossas mãos s'entregão valerosas,
Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,
Chorando sempre a antigua crueldade,
Para mover as almas a piedade.
Ja declinava o sol contra o Oriente,
E o mais do dia ja era passado,
Quando o pastor co'o grave mal que sente,
Por dar allívio em parte a seu cuidado,
Se queixa da pastora docemente,
Cuidando de ninguem ser escutado.
Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia
As mágoas que cantou; e assi dizia:
Ou tu do monte Pindaso es nascida,
Ou marmor te pario formosa e dura:[{203}]
Não póde ser que fosse concebida
Dureza tal de humana creatura:
Ou quiçá qu'es em pedra convertida,
Ou tens da natureza tal ventura;
Porém não fez em ti boa impressão,
Só de marmor tornar-te o coração.
Ja, ja com minha voz rouca e chorosa
A gente mais austera moveria;
E com esta corrente lagrimosa
Os tigres em Hyrcania amansaria.
Se não fosses cruel, quanto formosa,
Meu longo suspirar t'abrandaria:
Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
Que fazem senão mais endurecer-te?
Se deixáras vencer a crueldade
De tua tão perfeita formosura;
Hum pouco víras bem minha vontade,
E víras a fé minha, limpa e pura,
Por ventura, que houveras ja piedade,
E tivera eu quiçá melhor ventura:
Mas nunca achou igual tua belleza,
Se não se foi em ti tua dureza.
Ja hum peito abrandára, que não sente,
Este meu grave mal, segundo he forte;
Se descêra do inferno ao Polo ardente,
A piedade movêra a propria morte.
Pois se huma gotta d'agua brandamente
Torna brando hum penedo, duro e forte,
Tantas lagrimas minhas não farão
Hum pequeno sinal n'hum coração?
Na testa fonte viva tenho d'ágoa,[{204}]
Que por meus olhos tristes se derrama;
E no peito de fogo viva fragoa,
Que tudo em si converte, tudo inflama:
Amor em de redor, por maior mágoa,
Voando mais accende a ardente chama.
Se queres ver se ardentes são seus tiros,
Ólha se são ardentes meus suspiros.
Quando grita e rumor grande se sente,
Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
De pura compaixão vai toda a gente,
Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.
Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,
E com a ágoa dos olhos se soccorre;
Que quem me abraza, outra ágoa me defende,
Porque com esta o fogo mais se accende.
Quando vemos que sahe lá no Oriente
O sol, seu curso antigo começando,
Formoso, intenso, puro, refulgente,
O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
Quando de nós s'esconde no Ponente,
E em outras terras sahe, allumiando,
Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,
Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.
Caminha o dia todo o caminhante,
E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;
Trabalha na tormenta o navegante,
Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;
Recobra o fructo fertil e abundante
Da terra o lavrador, se nella cança:
Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
Tormento espero só, só crua morte.[{205}]
D'ouvir meu damno as rosas matutinas,
Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;
Com meu suspiro ardente as côres finas
Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.
Co'a roxa aurora as pallidas boninas,
Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
Deixão seu canto Progne e Philomena;
Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.
Responde o monte concavo a meus ais,
E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;
Os indomitos feros animais,
Sem humano sentir, mostrão sentido:
Mas em ti minhas dores desiguais
Nunca movem o peito endurecido:
Por muito que te chame, não respondes;
E quanto mais te busco, mais t'escondes.
Naquella parte donde costumavas
Apascentar meus olhos e teu gado;
Alli donde mil vezes me mostravas,
Qu'era o pastor de ti mais desejado,
Vezes mil te busquei, por ver se davas
Algum breve descanso a meu cuidado.
Busco-te em vão no valle, em vão no monte,
Qual o ferido cervo busca a fonte.
Este lugar de ti desamparado,
Com cujas sombras frias ja folgaste,
Agora triste, escuro he ja tornado;
Que todo o bem comtigo nos levaste.
Eras tu nosso sol mais desejado;
Não temos luz, despois que nos deixaste.[{206}]
Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
Qual he o Josué que te detém?
Despois que deste valle t'apartaste,
Não pasce ja algum gado, com seccura;
Seccou-se o campo, des que lhe negaste
Dos teus formosos olhos a luz pura;
Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,
Quando menos, que agora, aspera e dura;
Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
Ás cabras pasto e leite a os cabritos.
Sem ti, doce cruel minha inimiga,
A clara luz, escura me parece:
Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
Com meu chorar por ti contino crece.
Não ha fera, a que a fome não persiga;
Algum prado sem ti ja não florece:
Cegos estão meus olhos; nada vem,
Porque não podem ver seu claro bem.
O campo, como d'antes, não s'esmalta
De boninas azues, brancas, vermelhas;
Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta
As candidas pacíficas ovelhas:
Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta
As doces e solícitas abelhas:
Com lagrimas, que manão dos meus olhos,
A terra nos produz duros abrolhos.
Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,
Se restituir-lhe queres a alegria:
Alegrarás o valle, o campo, o gado,
E aquelle espelho teu da fonte fria.
Torna, torna, meu sol tão desejado,[{207}]
Faras a noite escura, claro dia;
E alegra ja esta vida magoada,
Em que só tua ausencia he Parca irada.
Vem, como quando o raio transparente
Deste nosso horizonte, qu'escondido,
Deixa hum certo temor á mortal gente,
Causado de ver o Orbe escurecido;
E quando torna a vir claro e luzente,
Alegra o mundo todo entristecido:
Que assi he para mi tua luz pura
Claro sol, como a ausencia noite escura.
Mas tu 'squecida ja do bem passado,
E do primeiro amor, que me mostraste,
Teu coração de mi t~ees apartado,
Não menos que do valle t'apartaste.
Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
Onde o meu êrro viste, ou desvario,
Que pôde merecer-te hum tal desvio?
Bem vês que por Amor se move tudo,
E que delle não ha quem seja isento;
O mais simple animal, mais baixo e rudo,
O demais levantado pensamento:
Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo
Tambem lá t~ee d'ardor seu movimento.
Pois as aves, que no ar cantando vôão,
Não menos humas d'outras s'affeiçôão.
A musica do leve passarinho
Que sem concêrto algum sólta e derrama,
De hum raminho saltando a outro raminho,
Mostra que por amor suspira e chama.[{208}]
Em quanto no secreto amado ninho
Não acha aquelle, que só busca e ama,
No canto, a nós alegre, triste chora,
Porque teme perder a quem namora.
A fera, que he mais fera, e o leão,
Sempre acha outro leão, sempre outra fera,
Em quem possa empregar huma affeição,
Que o conversar no peito seu lhe gera:
Tambem sabe sentir sua paixão,
Tambem suspira, morre, desespera;
Acena, salta, brada, ferve e geme;
E não temendo a nada, a Amor só teme.
O cervo, qu'escondido e emboscado,
Temendo ao cobiçoso caçador,
Está na selva, monte, bosque, ou prado,
Alli donde anda e vive, vive amor.
De temor e d'amor acompanhado,
Com justa causa amor t~ee e temor:
Temor a quem para feri-lo vinha,
Amor a quem ja, ja ferido o tinha.
Pois se a fera insensivel, que não sente,
Tambem sente d'Amor a frecha dura,
Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,
Que procede da tua formosura?
Porqu'escondes a luz do sol á gente,
Que nesses olhos trazes bella e pura?
Mais pura, mais suave, mais formosa,
Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.
Póde ser, se me visses, que sentiras
Ver liquidar hum peito em triste pranto;
E bem pouco fizeras, se me viras,[{209}]
Pois eu só por te ver suspiro tanto:
As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
Te puderão mover a grande espanto,
A dor, a piedade, a sentimento,
E a mais, que para mais he meu tormento.
Os pensamentos vãos, que o vento leve:
O suspirar em vão tambem ao vento;
Hum esperar á calma, á chuva, á neve,
E nunca poder ver-te hum só momento;
Tormento he, que somente a ti se deve.
E se póde inda haver maior tormento,
Quem te vio, e se vê de ti ausente,
Muito mais passará mais levemente.
Faz mossa a pedra dura em sua dureza
Com a ágoa que lhe toca brandamente;
Abranda o ferro forte a fortaleza,
Se lhe toca tambem o fogo ardente:
Em ti só desconheço a natureza;
Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
Ja teu peito cruel fôra desfeito
Das ágoas e das chammas do meu peito.
Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
Alegra toda a terra, vendo o dia;
Quando Phebo apparece no horizonte,
Manifesta tambem grande alegria;
Contente pasce o gado ao pé do monte,
Contente a beber vai na fonte fria:
Está tudo contente, alegre tudo;
Eu só, só pensativo, triste e mudo.
Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
E do corpo sem alma não tens dó,[{210}]
Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,
Pois sem alma não vive o corpo só.
Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,
Na affeição, no querer eu sou hum só:
Não acharás vontade tão captiva;
Nem outra como a tua tão esquiva.
Se te apartas por não ouvir meu rôgo,
Onde estiveres te hei d'importunar:
Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,
Comtigo em toda parte m'has d'achar;
Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,
Emquanto eu vivo for, hão de durar;
Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,
Que não se ha de soltar em vida, ou morte.
Neste meu coração sempr'estaras,
Emquanto a alma estiver com elle unida:
Tambem o meu esprito possuirás
Despois que a alma do corpo for partida.
Por mais e mais que faças, não faras
Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
Impossivel sera qu'eternamente
Ausente estês de mim, estando ausente.
Cá m'acompanhará vossa memoria,
Se o rio, que se diz do esquecimento,
Da minha não borrar tão longa historia,
Tão grave mal, tão duro apartamento.
Até quando vos veja entrar na gloria,
Viverei n'hum contino sentimento:
E ainda então vereis (s'isto ser possa)
Esta minh'alma lá servir a vossa.
Aqui com grave dor, com triste accento,[{211}]
Deo o triste pastor fim a seu canto:
Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
Seus olhos começárão novo pranto:
Mil vezes parar fez no ar o vento,
E apiedou no ceo o coro santo:
As circumstantes sylvas s'inclinárão,
Condoidas das mágoas qu'escutárão.
Com h~ua mão na face, reclinado,
Tão enlevado em sua dor estava,
Que, como em grave somno sepultado,
Não via que ja o sol no mar entrava.
Berrando andava em roda o manso gado,
Que o seguro curral ja desejava:
Nas covas as raposas, e em seus ninhos
Se recolhem os simples passarinhos.
Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto
O mocho com funesto e triste canto:
Ao som delle o pastor ergueo o rosto,
E vio a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio de seu gôsto,
E o fio não quebrando de seu pranto,
Por não se descuidar de seu cuidado,
Levou para os curraes o manso gado.[{212}]

[ECLOGA VI]

[INTERLOCUTORES]

AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador.