[PISCATORIA.]
Palemo.
Despois que o leve barco ao duro remo,
Onde menos das ondas se temia,
Atou o pescador pobre Palemo;
Em quanto as negras redes estendia
Seu companheiro Alcão na branca arêa,[{243}]
E Lico as longas cordas envolvia;
De cima d'huma rocha, a qual rodêa
O mar, quebrando nella de contino,
Começou a chamar por Galatêa.
Deixa o molle licor e crystallino,
(Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja
Enxugar teu cabello d'ouro fino.
Inda que t~ee de ti tão grande inveja,
Não temas que te queime o rosto brando:
Basta para abrandar-se que te veja.
Não te detenhas mais, vem ja cortando
Com teu candido peito as brancas ondas,
Escumas menos brancas levantando.
Dar-te-hei (com condição que não t'escondas
De mi lá nessas humidas moradas,
E que algum'hora, branda me respondas)
Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas,
Todas d'huma feição; não d'huma côr,
Pois dellas são azues, dellas rosadas.
Indaque seja pobre pescador,
Não sei se em desprezar-me muito acertas,
Pois rico do amor teu me fez Amor.
Para ti n'outras praias mais desertas
Irei pescar por entre pedras duras,
Que sempre verde musgo t~ee cobertas,
As pardas ostras, onde gottas puras
De fresco orvalho, dentro endurecidas,
Não podem da cobiça estar seguras.
Porque deixas de vir? porque duvídas?
Por ventura d'algum meu companheiro?
Inda as redes ao sol t~ee estendidas.[{244}]
Toda a noite pescárão, e primeiro
Querem dormir a sesta nesta praia,
Que o barco polo mar levem ligeiro.
Eu, vigiando aqui como atalaia,
Te chamarei, até que de cansado
Hum dia desta rocha abaixo caia,
Deixando este lugar tão infamado
Com minha morte, que dos marinheiros
Com o dedo de lá será mostrado.
Dirão os naturaes e os estrangeiros:
Alli morreo Palemo. Ai triste historia!
Guardae a nao de alli, ventos ligeiros.
Antes que tal succeda, vê que gloria
Alcanças com deixar aos navegantes
Da tua ingratidão esta memoria.
Da nossa differença não te espantes:
Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso,
Qual eu agora sou, tal era d'antes.
Tambem eu entre as hervas achar posso
Aquella, a quem o ceo deo tal virtude,
Que muda n'outro ser este ser nosso.
Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude,
Inda que vá a morar lá nessas ágoas,
Não temas que a mudança em mi o mude.
Serão as vivas ondas vivas frágoas,
Em que estarei ardendo noite e dia,
Se não tiveres dó de tantas mágoas.
As horas naturaes da pescaria
Não vês que vão passando? Como as passas?
Quem deste passatempo te desvia?
Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças[{245}]
Dar em vão tantos gritos: vem; iremos
Ambos a levantar as verdes naças.
Ambos os anzoes curvos cobriremos
De mentirosas iscas, com que os peixes
A todo prazer nosso prenderemos.
Assi d'Amor cruel nunca te queixes,
E dessa formosura as mais formosas
Nymphas do mar azul vencidas deixes;
Que venhas (pois por ti com saudosas
Lagrimas vou gastando a vida e alma)
A tirar-me esperanças duvidosas.
A praia está callada, o mar em calma;
Por cima desta rocha brandamente
Zephyro respirando a desencalma.
Aqui não sinto cousa certamente
Porque deixes de vir, como sohías,
Senão, que não es tu disso contente.
Se desgostas das grossas pescarias,
Marisco appetitoso aqui não falta,
Ja sejão luas cheias, ja vazias.
Polos pés desta rocha dura e alta
Irei eu despegando huns como pés
D'hum pequeno animal, que nella salta.
E vivos te darei (se delles es
Amiga) mil cangrejos vagarosos,
Que verás ir andando de revés.
Não te darei ouriços espinhosos,
Porque te quero tanto, que receio
Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos.
Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,
Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,[{246}]
Podemos apanhar hum cesto cheio.
Mas além de tudo isto hum crespo galho
De vermelho coral te darei logo,
Que por dita arrastou o meu tresmalho.
Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo;
Que nem tu a meus rogos tens respeito,
Nem eu, por mais que grite, desaffógo.
Hum coração em lagrimas desfeito
Como ja não te abranda? quem encerra
Crueza tal em tão formoso peito?
Não reina Amor no mar, como na terra?
Bem sabes que mil vezes ja venceo
A Neptuno teu Rei em clara guerra.
Sua formosa mãe onde nasceo,
Senão no proprio mar em que te banhas?
Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo?
Se das pedras nascesses nas montanhas,
Se com leite de tigres te criáras,
Mais duras não tiveras as entranhas.
Apparecêras tu, e então tornáras
Logo a esconder-te, logo, se quizeras
Nas ondas, que de ti me são avaras.
Com h~ua mostra só que de ti deras,
A vida, que me foge em não te vendo,
Co'os teus formosos olhos detiveras.
Então víras os meus, donde correndo
De lagrimas se vem dous largos rios,
Que o mar tambem em si vai recolhendo.
Ah nescio pescador! que desvarios
Me deixo aqui dizer! a quem os digo!
A surdas ondas ja, ja a ventos frios.[{247}]
Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo
O barco vejo: ai! ei-lo combatido.
Ellas e elles o levão ja comsigo.
Olhos, que lá me tendes o sentido,
A culpa he vossa só, que me não vêdes.
Mas, pois o pescador anda perdido,
Perca-se o barco seu, percão-se as redes.
[ECLOGA X.]
[PISCATORIA.]
Meliso.
Encheo do mar azul a branca praia
Meliso pescador de mil querellas;
Meliso, que por Lilia arde e desmaia.
Despois que á luz da lua e das estrellas,
Sôbre dura fatexa o barco pôsto,
As redes recolheo, remos e velas:
Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto
Te move a me negar, vendo qual ando,
Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto?
Se tu queres que pene desejando,
Se queres que no mar em fogo viva;
Ardendo sempre estê, sempre penando.
Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva)
Que não merece ser tão mal tratada
Hum'alma desses olhos tão captiva.
Vives dos meus cuidados descuidada:[{248}]
Coitado de quem traz a duvidosa
Vida no mar e terra aventurada!
Bem podes com razão ser piedosa
Com quem não quer mor bem, que bem quererte,
Não sendo tão cruel como es formosa.
Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te
A meus cansados olhos, que de tantas
Lagrimas são movidos, sem mover-te.
Se tu me vences, e se tu m'encantas
Com tua doce falla, doce riso,
Porque foges de mi? porque te espantas?
Lembre-te a formosura de Narciso,
E qual pago lhe deo seu desamor:
Ólha que com amor disto te aviso.
Mas quando essa crueza tanta for,
Que mereça do ceo novo castigo,
Qual herva será digna de tal flor?
Amor que me persegue, Amor que sigo,
Me faz d'hum grave mal andar temendo;
D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo.
Quanto mais ledo ja te estive vendo
Aqui as mansas ondas esperando,
Que por chegar a ti vinhão correndo,
E da molhada areia despegando
Com a candida mão roxas conchinhas,
A fórma do teu pé nella deixando?
Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas,
Muitas te trago aqui, postoque temo
Que menos o terás por serem minhas.
Hum temor tal me chega a tal extremo,
Que, vencido d'hum triste esquecimento,[{249}]
No mar me cahe da mão o duro remo.
E quando a branca vela sólto ao vento,
Tão descuidado vou do fiel leme,
Que me leva a perder meu pouco tento.
Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
Os seus maiores riscos não receia,
Os teus que sente mais, muito mais teme.
Despois que te não vi, (não sei que creia
Desta tardança tua e morte minha)
Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
O tempo, que nos gostos passa asinha,
Detem-se neste mal da saudade,
Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,
Que por te contentar tudo despreza,
Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
Se pretendes amor, ja tens certeza
Que não podes ser nunca mais amada
Dos que vencidos traz tua belleza.
Se por ventura estás affeiçoada
A gentil parecer, a bom engenho,
A ninguem nestas partes devo nada.
Se fazes caso d'honra, ólha que venho
De geração d'honrados pescadores;
Se de riqueza, barco e redes tenho.
Por erros julgarás estes louvores;
E oxalá não os julgues por doudice!
Mas quem siso quer ter não tenha amores.
E mais tudo foi pouco quanto disse,
Pondo os olhos no muito que meu fado
Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.[{250}]
Aconteceo-me hum caso desusado,
(Inda que d'huma cousa n'outra salto)
Digno, por ser de amor, de ser contado.
Pescando hontem á tarde no mar alto,
Suspenso nessa rara formosura,
A quem com mil lembranças nunca falto,
Comecei a cantar: Lilia, mais dura
Que a mais inculta rocha rodeada
Do mar, de cujo encontro está segura;
Mais alva que jasmins, e mais córada
Que purpureas serejas polo Maio;
Mais loura que manhãa desentrançada;
Não vês... dizer queria que desmaio,
Quando (cousa que mal me será crida)
No mar, vencido d'hum, do barco caio?
Alli tivera fim a triste vida,
Se d'hum brando delfim, que me escuitava,
Não fôra, por ser tua, soccorrida.
Parece que tambem vencido estava
Do mal, de que me via andar vencido,
Quem em tamanho risco m'ajudava.
Trouxe-me sôbre si adormecido,
Nadando ao som das ondas mansamente,
Até que me sentio em meu sentido.
Livre deste mortal, bravo accidente,
Tal foi o espanto meu, tal meu temor,
Que d'outro me livrei escaçamente.
Mas logo o amoroso nadador
Me poz junto do barco, que tão perto
Esteve de ficar sem pescador.
O sol era de todo ja coberto,[{251}]
Quando eu, entrando nelle, sahi fóra
Do perigo, onde tive o fim tão certo.
Porém outro maior me cansa agora,
De que mal sahirei, se te não vir
Amanhecer aqui co'a nova aurora.
Não póde ella tardar em descobrir
As suas louras tranças dasatadas,
Das quaes as tuas bem se podem rir.
Pois por cima das ondas, acordadas,
As Halcyoneas ouço lamentar-se,
Do seu antigo damno inda lembradas.
E sinto o fresco orvalho derramar-se
Mais congelado e frio; e Venus bella
Polo Oriente ja vejo levantar-se.
Bem podes, Lilia, competir com ella,
E com Pallas e Juno em gentileza;
Em amor não, pois elle nasceo della:
Desterrou-o de ti tua aspereza,
Que desterra de mi prazer e vida,
Deixando em seu lugar mágoa e tristeza.
No silencio da noite, que convida
A descanso commum, tanto me cança,
Que não sei se remedio ou morte pida.
Se tu quizesses dar-me huma esperança
De te servir de mi ou tarde, ou cedo,
Nunca me negaria o mar bonança.
Polas inchadas ondas, que põe medo,
Eu só, sem mais ajuda, levaria
Sempre á fôrça de braço o barco quedo.
Tão seguro por ellas andaria,
Como polo seu campo o lavrador[{252}]
No mais quieto, claro e bello dia.
Ólha que não ha destro pescador,
Que mais manhoso as redes desencolha,
Nem os tortos anzoes isque melhor.
Os peixes deixarei em tua escolha:
Aquelles de que fores mais amiga,
Nunca te faltarão de fôlha a fôlha.
Não sei, Lilia formosa, que mais diga,
Que mova amor em ti, que mova mágoa;
Sei que mágoa, e que amor a mais obriga.
Mas antes que o sol dê naquella frágoa,
Onde meus ais dilata a triste Ecco,
Vou-me segurar mais o barco na ágoa,
Porque de baixa mar não fique em sêcco.
[ECLOGA XI.]
[INTERLOCUTORES.]
ANZINO e LIMIANO.