Nem roxa flor de Abril,
Pintor do campo ameno e da verdura,
Colhida entre outras mil,[{341}]
Foi nunca assi agradavel á donzella
Cortez, alegre e bella,
De sua mãe cuidado e glória pura,
Como a mi foi a inculta formosura
Natural, que pudera
A Saturno render na sua Esphera.
Natural fonte agreste,
Não lavrada d'Artifice excellente,
Mas por arte celeste
Derivada de rustico penedo,
Não fez ja mais tão ledo
Cansado caçador por sesta ardente,
Quanto o cuidado a mi me fez contente
Do ver tão descuidado,
Que faz sereno a Jupiter irado.
Fructa, que sem concêrto
Naturalmente em ramos se pendura,
Achada por acêrto;
A quem pintada a vê de sangue e leite,
Não lhe dara o deleite,
Qu'essa graça me dá sem compostura,
Ornamento da mesma formosura,
E o toucado sem arte,
Que tornára pastor ao bravo Marte.
A manhãa graciosa,
Que derramando sahe d'entre os cabellos
A flor, o lirio, a rosa,
Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,
Não faz o beneficio,
Que faz a luz dos vossos olhos bellos
A quem os vê tão puros e singelos;[{342}]
E esse innocente riso,
Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
Outeiros coroados
Das árvores que fazem a espessura
Com os ramos copados
Alegre, que mão destra os não cultiva,
Graça tão excessiva
Não t~ee na sua natural verdura,
Quanta na d'esses olhos, clara e pura,
Deposita a esperança,
Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança.
Dos simples passarinhos
A musica sem arte concertada,
D'entre os verdes raminhos,
Tão suave não he, tão deleitosa
A quem na selva umbrosa
Com mente ouvindo-a está toda enlevada,
Quanto a mi essa falla doce agrada,
E o natural aviso,
Que roubão a Mercurio sceptro e siso.
De frescos rios ágoa,
Que clara entre arvoredos se deriva,
Cahindo d'alta fragoa,
Esmaltando de perolas no prado
O verde delicado,
Com brando som aos olhos fugitiva,
Não nos alegra quanto a graça esquiva
D'essa luz soberana,
Que faz cortez a rustica Diana.
A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)
Vendo estás ja prostrado[{343}]
Saturno triste, Jupiter irado,
Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
E Mercurio, e Diana, e toda estrella.
[CANÇÃO XIII.]
Oh pomar venturoso,
Onde co'a natureza
A subtil arte t~ee demanda incerta;
Qu'em sítio tão formoso
A maior subtileza
D'engenho em ti nos mostras descoberta!
Nenhum juizo acerta,
De cego e d'enlevado,
Se t~ee em ti mais parte
A natureza, ou arte;
Se Terra ou Ceo de ti t~ee mais cuidado,
Pois em feliz terreno
Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.
De teu formoso pêzo
Se mostra o monte ledo,
E o caudaloso Zezere t'estranha,
Porque ólhas com desprêzo
Seu crystal puro e quedo,
Que com Pera os teus pés rodeia e banha.
Em ti pintura estranha,
A que Apelles cedêra,
Enigmas intricados,
E myrtos animados[{344}]
Vemos, que o proprio Escopas não fizera;
Em ti, co'a paz interna,
T~ee o santo prazer morada eterna.
Os jardins da famosa
Babel, tão nomeados,
Por maravilha o mundo não levante,
Inda que com gloriosa
Voz, qu'estão pendurados
Do instavel ar, a fama antigua cante:
Nem haja quem s'espante
Dos famosos d'Alcino;
Nem as mais doutas pennas
Cantem os de Mecenas,
Cultor de todo engenho peregrino;
Mas onde quer que vôe,
De ti só falle a Fama, e te pregôe.
Que s'era antiguamente
De pomos d'ouro bellos
O jardim das Hesperidas ornado;
E, a pezar da serpente
Que os guardou, só colhellos
Pôde o famoso Alcides, d'esforçado;
Tu, mais avantajado,
Mostras a hum'alma casta
Seguir o que deseja,
Fugir da torpe inveja
(Pomos d'ouro que o tempo não contrasta):
Emfim, co'a caridade
Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.
Por tanto da ventura,
Para ti reservada,[{345}]
Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;
Porque sejas figura
Da gloria avantajada
Delle mesmo, e qu'em ti se represente;
Porqu'em quanto sustente
O ceo, o mar e a terra,
Seus feitos milagrosos,
Mysterios mais gloriosos,
Com que a morte das almas nos desterra,
Por onde em nossas almas
Com mais pompas triumpha e com mais palmas,
.......................
Goza, pois, longamente
Teu venturoso fado,
Da mãe do teu autor bem possuido:
Qu'em ti, sempre contente
De seu sublime estado,
A alma dos seus alegra e o sentido.
Cada qual preferido
Nas grandes qualidades
Ao sabio Nestor seja,
Para que o mundo os veja
Exceder as longuissimas idades;
E com a longa vida
Seja sua memoria ennobrecida.
Canção, pois mais famosas
Por ti não podem ser
Deste monte as estancias deleitosas;
Bem póde succeder
Que aquelle que os teus numeros governa,
Por querê-las cantar te faça eterna.[{346}]
[CANÇÃO XIV.]
Quem com sólido intento
Os segredos buscar da natureza,
Quanto d'Athenas préza,
Entregue ao mar irado, ao leve vento:
Em forjar meu tormento,
Nova Philosophia,
D'experiencias feita, Amor m'ensina.
Das Leis do antigo tempo bem declina;
Que Amor a natureza em mi varía;
Donde escola de Sabios nunca vio
Em natural sogeito
Quanto Amor em meu peito descobrio.
As aves no ar sereno,
O gado de Proteo nas ágoas pasce;
Vive o homem e nasce
Neste mundo, qual mundo mais pequeno:
Eu tudo desordeno,
Em todos dividido;
A boca no ar, na terra o entendimento:
Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;
O coração no fogo he consumido:
Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,
T~ee effeito tão vário,
Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.
Da vista Amor sohia
Abrir ao coração segura entrada:
Lei he ja profanada;[{347}]
Que quando a luz d'huns olhos me fería,
Amando o que não via,
Qual d'escopeta o lume,
Primeiro o querer vi, que a causa visse.
Quem o desejo co'a esperança unisse,
Cego iria apos cego e vil costume;
Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,
Morta a esperança vejo,
Onde sempre o desejo se sustenta.
Em vão se considera
Que hum semelhante a outro busca e ama,
E que foge e desama
Todo mortal a morte esquiva e fera:
Sigo huma linda fera,
Qu'esconde em vista humana
Coração de diamante e peito d'aço,
De meu sangue faminta; e satisfaço
Com cruel morte a sêde deshumana.
Assi que, sendo em tudo differente,
Corro apos minha sorte,
E se m'entrego á morte, estou contente.
Cahe em maior defeito
Quem cuida ser sciencia clara e certa,
Que a causa descoberta
Sempre produz a si conforme o effeito:
Rendeo-me hum lindo objeito,
Que, sendo neve pura,
Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;
Qu'esta formosa fera fugitiva,
Com ser neve, do fogo s'assegura:
Donde infiro por certo (e cesse a fama[{348}]
Vãa, mentirosa e leve)
Que não desfaz a neve ardente chama.
Bem no effeito se sente
Cessar, cessando a causa donde pende;
Que o fogo mais se accende,
Estando á vista, donde mais ausente;
Mas n'alma vivamente
A trazem debuxada,
De noite Amor, de dia o pensamento:
E quando Apollo deixa o claro assento,
Por entre sombras vejo a Nympha amada.
Pois se sem luz Amor os olhos ceva,
Cego, se não concede
Qu'em nada a Amor impede a escura treva.
Erra quem atrevido
Pregôa ser maior que a parte o todo:
Amor me t~ee de modo,
Qu'estou n'hum'alma minha convertido:
Desta gloria ha nascido
O temor de perdê-la:
E, postoque o receio a muitos finge
Lá na imaginação Chimera e Sfinge
De mal futuro, que urde imiga estrella,
Vejo em mi, por incognito segredo,
Quando estou mais contente,
Que só do bem presente nasce o medo.
T~ee-se por manifesto
Parecer-se ao sogeito o accidente;
Mas inda em mi se sente
O pensamento, a côr, o riso, o gesto;
E, tendo todo o resto[{349}]
Da vida ja perdido
Neste tormento meu tão duro e esquivo,
A gostos morto estou, a penas vivo.
E, sendo morto ja, vive o sentido,
Porque sinta que n'alma despedida
Póde em meu mal unir-se
O ficar e o partir-se, a morte e a vida.
Destas razões, Canção, infiro e creio,
Que ou se mudou em tudo a fórma usada
Da natural firmeza,
Ou tenho a natureza em mi mudada.
[CANÇÃO XV.]
Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,
Que sempre na alma vejo?
Ou me pinta o desejo
O bem qu'em vão cad'hora m'assegura?
Mal póde a noite escura,
Amando a sombra fria,
Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,
Que se não torne em dia,
De seus luzentes raios inflammada.
Oh vista desejada
De graciosa Nympha e viva estrella!
Que ha tanto que por este mar navego
(Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.[{350}]
Nesses formosos olhos, d'enlevada,
Minh'alma se escondeo,
Quando ordenava o Ceo
Que vivesse comigo desterrada.
Vós a mais certa estrada
De ver a summa alteza,
Do efeito a causa abris a est'alma minha.
Assi mortal belleza
Só della nasce, e nella se resume;
Assi celeste lume
Lá dos ceos se deriva, e lá caminha.
Pois, como a Deos unir-me a vista possa,
Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?
Se me quereis prender a parte a parte,
Cabello ondado e louro,
Tecei-me a rede de ouro
Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.
Des que com gentil arte
Vestis de flores bellas
A terra em que tocais co'a bella planta,
Quantas vezes com vellas
Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?
Porque, vendo pizar-me
D'esse candido pé, que a neve espanta,
Póde ser que na flor mudado fôra
Que deo a Juno irada a linda Flora.
Mas onde te acolheste (ó doce vida!)
Mais leve e pressurosa,
Do que na selva umbrosa
Cerva d'aguda setta vai ferida?
Se para tal partida,[{351}]
Meus olhos, vos abristes,
Cerrára-vos o somno eternamente,
Antes que ver-vos tristes,
Perdendo tão suave e doce engano!
Agora, com meu dano,
Vêdes, para mor mágoa, claramente,
Neste bem fugitivo e somno leve,
Que mal não ha mais longo, que hum bem breve.
Ditoso Endymião que a deosa chara,
Que a noite vai guiando,
Teve em braços sonhando!
Ah quem de sonho tal nunca acordára!
Tu só, Aurora avara,
Quando os olhos feriste,
Me mataste cruel d'inveja pura.
Mas se d'esta alma triste
A negra escuridão vencer quizeste,
Sabe qu'em vão nasceste;
Que para desfazer-se a nevoa escura
De meus olhos, importa estar presente
Outro sol, outra aurora, outro Oriente.
Se a luz de meu Planeta,
Não m'aviva, Canção, branda e quieta,
Qual flor de chuva, em breve consumida,
Verás desfeita em lagrimas a vida.[{352}]
[CANÇÃO XVI.]
Por meio d'humas serras mui fragosas,
Cercadas de sylvestres arvoredos,
Retumbando por asperos penedos,
Correm perennes ágoas deleitosas.
Na ribeira de Buina, assi chamada,
Celebrada,
Porqu'em prados
Esmaltados
Com frescura
De verdura,
Assi se mostra amena, assi graciosa,
Qu'excede a qualquer outra mais formosa;
As correntes se vem, que acceleradas,
As hervas regalando e as boninas,
Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas,
Por diversas ribeiras derivadas.
Com mil brancas conchinhas a aurea areia
Bem se arreia;
Voão aves;
Mil suaves
Passarinhos
Nos raminhos
Acordemente estão sempre cantando,
Com doce accento os ares abrandando.
O doce rouxinol n'hum ramo canta,
E d'outro o pintasirgo lhe responde;
A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,[{353}]
O caçador sentindo, se levanta:
Voando vai ligeira mais que o vento;
Outro assento
Vai buscando;
Porém quando
Vai fugindo;
Retinindo,
Traz ella mais veloz a setta corre,
De que ferida logo cahe e morre.
Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,
Co'o peito ensanguentado anda voando,
Cibato para o ninho indo buscando;
A leda codorniz vem ao reclamo
Do sagaz caçador, que a rede estende,
E pretende
Com engano
Fazer dano
Á coitada,
Qu'enganada
D'huns esparzidos grãos de louro trigo,
Nas mãos vai a cahir de seu imigo.
Aqui sôa a calhandra na parreira;
A rôla geme; palra o estorninho;
Sahe a candida pomba do seu ninho;
O tordo pousa em cima da oliveira:
Vão as doces abelhas susurrando,
E apanhando
O rocio
Fresco e frio
Por o prado
D'herva ornado,[{354}]
Com que o aureo licor fazem, que deo
Á humana gente a indústria d'Aristeo.
Aqui as uvas luzidas, penduradas
Das pampinosas vides, resplandecem;
As frondiferas árvores se offrecem
Com differentes fructos carregadas:
Os peixes n'ágoa clara andão saltando,
Levantando
As pedrinhas,
E as conchinhas
Rubicundas,
Que as jucundas
Ondas comsigo trazem, crepitando
Por a praia alva com ruido brando.
Aqui por entre as serras se levantão
Animaes Calidoneos, e os veados
Na fugida inda mal assegurados,
Porque do som dos proprios pés s'espantão.
Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa
Da frondosa
Breve mata,
Donde a cata
Cão ligeiro.
Mas primeiro
Qu'ella ao contrário férvido s'entregue,
Ás vezes deixa em branco a quem a segue.
Luzem as brancas e purpúreas flores,
Com que o brando Favonio a terra esmalta;
O formoso jacintho alli não falta,
Lembrado dos antiguos seus amores.
Inda na flor se mostrão esculpidos[{355}]
Os gemidos:
Aqui Flora
Sempre mora;
E com rosas
Mais formosas,
Com lirios e boninas mil fragrantes,
Alegra os seus amores circumstantes.
Aqui Narciso em líquido crystal
Se namora de sua formosura:
Nelle as pendentes ramas da'spessura
Debuxando-se estão ao natural.
Adonis, com que a linda Cytherêa
Se recrêa,
Bem florido,
Convertido
Na bonina,
Qu'Erycina
Por imagem deixou de qual sería
Aquelle por quem ella se perdia.
Lugar alegre, fresco, accommodado
Para se deleitar qualquer amante,
A quem com sua ponta penetrante
O cego Amor tivesse derribado;
E para memorar ao som das ágoas
Suas mágoas
Amorosas,
As cheirosas
Flores vendo,
Escolhendo,
Para fazer preciosas mil capellas,
E dar por grão penhor a Nymphas bellas.[{356}]
Eu dellas, por penhor de meus amores,
Huma capella á minha deosa dava:
Que lhe queria bem, bem lhe mostrava
O bem-mequeres entre tantas flores:
Porém, como se fôra mal-mequeres,
Os poderes
Da crueldade
Na beldade
Bem mostrou;
Desprezou
A dadiva de flores; não por minha,
Mas porque muitas mais ella em si tinha.