[ODE V.]
Nunca manhãa suave
Estendendo seus raios por o mundo,
Despois de noite grave,
Tempestuosa, negra, em mar profundo
Alegrou tanto nao, que ja no fundo
Se vio em mares grossos,
Como a luz clara a mi dos olhos vossos.
Aquella formosura,
Que só no virar delles resplandece;
E com que a sombra escura
Clara se faz, e o campo reverdece;
Quando o meu pensamento se entristece,
Ella e sua viveza
Me desfazem a nuvem da tristeza.
O meu peito, onde estais,
He para tanto bem pequeno vaso;[{372}]
Quando acaso virais
Os olhos, que de mi não fazem caso,
Todo, gentil Senhora, então me abraso
Na luz que me consume,
Bem como a borboleta faz no lume.
Se mil almas tivera
Que a tão formosos olhos entregára,
Todas quantas pudera
Por as pestanas delles pendurára;
E, enlevadas na vista pura e clara,
(Postoque disso indinas)
Se andárão sempre vendo nas meninas.
E vós, que descuidada
Agora vivereis de taes querellas,
D'almas minhas cercada,
Não pudesseis tirar os olhos dellas;
Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas
A dor que lhe mostrassem,
Tantas huma alma só não abrandassem.
Mas, pois o peito ardente
Huma só póde ter, formosa Dama,
Basta que esta somente,
Como se fossem mil e mil, vos ama,
Para que a dor de sua ardente flama
Comvosco tanto possa,
Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.[{373}]
[ODE VI.]
Póde hum desejo immenso
Arder no peito tanto,
Que á branda e á viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nodoas do terreno manto;
E purifique em tanta alteza o esprito
Com olhos immortais,
Que faz que leia mais do que vê'scrito.
Que a flamma, que se accende
Alto, tanto allumia,
Que se o nobre desejo ao bem s'estende
Que nunca vio, o sente claro dia;
E lá vê do que busca o natural,
A graça, a viva côr,
N'outra especie melhor que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo
De viva formosura,
Que de tão longe cá noto e contemplo
N'alma, que este desejo sobe e apura;
Não creais que não vejo aquella imagem
Que as gentes nunca vem,
Se de humanos não tem muita vantagem.
Que se os olhos ausentes
Não vem a compassada
Proporção, que das côres excellentes
De pureza e vergonha he variada;
Da qual a Poesia, que cantou[{374}]
Atéqui só pinturas
Com mortaes formosuras igualou;
Se não vem os cabellos
Que o vulgo chama de ouro;
E se não vem os claros olhos bellos,
De quem cantão que são de sol thesouro;
E se não vem do rosto as excellencias,
A quem dirão que deve
Rosa, e crystal, e neve as apparencias;
Vem logo a graça pura,
A luz alta e severa,
Que he raio da divina formosura,
Que n'alma imprime e fóra reverbera;
Assi como crystal do sol ferido,
Que por fóra derrama
A recebida flamma esclarecido.
E vem a gravidade,
Com a viva alegria
Que misturada t~ee de qualidade,
Que huma da outra nunca se desvia;
Nem deixa de ser huma receada
Por leda e por suave,
Nem outra, por ser grave, muito amada.
E vem do honesto siso
Os altos resplandores
Temperados co'o doce e ledo riso,
A cujo abrir abrem no campo as flores;
As palavras discretas e suaves,
Das quaes o movimento
Fara deter o vento e as altas aves:
Dos olhos o virar[{375}]
Que torna tudo raso,
Do qual não sabe o engenho divisar
Se foi por artificio, ou feito acaso;
Da presença os meneios e a postura,
O andar e o mover-se,
Donde póde aprender-se formosura.
Aquelle não sei que,
Que aspira não sei como,
Qu'invisivel sahindo, a vista o vê,
Mas para o comprender não lhe acha tomo;
E que toda a Toscana Poesia,
Que mais Phebo restaura,
Em Beatriz, nem Laura nunca via:
Em vós a nossa idade,
Senhora, o póde ver,
S'engenho, se sciencia e habilidade,
Iguaes á vossa formosura der,
Qual a vi no meu longo apartamento,
Qual em ausencia a vejo.
Taes azas dá o desejo ao pensamento!
Pois se o desejo afina
Hum'alma accesa tanto,
Que por vós use as partes de divina;
Por vós levantarei não visto canto,
Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante:
Que o nosso claro Tejo,
Envolto hum pouco o vejo e dissonante.
O campo não o esmaltão
Flores, mas só abrolhos
O fazem feio; e cuido que lhe faltão
Ouvidos para mi, para vós olhos.[{376}]
Mas faça o que quizer o vil costume;
Que o sol, qu'em vós está,
Na escuridão dara mais claro lume.
[ODE VII.]
A quem darão de Pindo as moradoras,
Tão doctas como bellas,
Florecentes capellas
De triumphante louro, ou myrto verde;
Da gloriosa palma, que não perde
A presumpção sublime,
Nem por fôrça de pêzo algum se opprime?
A quem trarão nas faldas delicadas,
Rosas a roxa Cloris,
Conchas a branca Doris;
Estas, flores do mar; da terra aquellas,
Argenteas, ruivas; brancas e amarellas,
Com danças e corêas
De formosas Nereidas e Napêas?
A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos,
Em Thebas Amphion,
Em Lesbos Arion,
Senão a vós, por quem restituida
Se vê da Poesia ja perdida
A honra e gloria igual,
Senhor Dom Manoel de Portugal?
Imitando os espritos ja passados,[{377}]
Gentis, altos, Reais,
Honra benigna dais
A meu tão baixo, quão zeloso engenho.
Por Mecenas a vós celebro e tenho;
E sacro o nome vosso
Farei, se alguma cousa em verso posso.
O rudo canto meu, que resuscita
As honras sepultadas,
As palmas ja passadas
Dos bellicosos nossos Lusitanos
Para thesouro dos futuros anos,
Comvosco se defende
Da lei Lethêa, á qual tudo se rende.
Na vossa árvore ornada d'honra e glória
Achou tronco excellente
A hera florecente
Para a minha atéqui de baixa estima:
Nelle, para trepar, s'encosta e arrima;
E nella subireis
Tão alto, quanto os ramos estendeis.
Sempre forão engenhos peregrinos
Da Fortuna invejados;
Que quanto levantados
Por hum braço nas azas são da Fama,
Tanto por outro aquella, que os desama,
Co'o pêzo e gravidade
Os opprime da vil necessidade.
Mas altos corações dignos d'Imperio,
Que vencem a Fortuna,
Forão sempre coluna
Da sciencia gentil: Octaviano,[{378}]
Scipião, Alexandre e Graciano,
Que vemos immortais;
E vós, que o nosso seculo dourais.
Pois, logo, em quanto a cithara sonora
S'estimar por o mundo,
Com som docto e jucundo;
E em quanto produzir o Tejo e o Douro
Peitos de Marte e Phebo crespo e louro,
Tereis glória immortal,
Senhor Dom Manoel de Portugal.
[ODE VIII.]
Aquelle unico exemplo
De fortaleza heroica e ousadia,
Que mereceo no templo
Da Fama eterna ter perpétuo dia;
O grão filho de Thetis, que dez anos
Flagello foi dos miseros Troianos;
Não menos ensinado
Foi nas hervas e Medica polícia,
Que destro e costumado
No soberbo exercicio da Milicia:
Assi que as mãos que a tantos morte derão,
Tambem a muitos vida dar puderão.
E não se desprezou
Aquelle fero e indomito mancebo
Das Artes qu'ensinou[{379}]
Para o languido corpo o intonso Phebo;
Que se o temido Heitor matar podia,
Tambem chagas mortaes curar sabía.
Taes Artes aprendeo
Do semiviro Mestre e docto velho,
Onde tanto cresceo
Em virtude, e em sciencia e em conselho,
Que Telepho, por elle vulnerado,
Só delle pôde ser despois curado.
Pois vós, ó excellente
E illustrissimo Conde, do ceo dado
Para fazer presente
D'altos Heroes o seculo passado;
E em quem bem trasladada está a memoria
De vossos ascendentes, a honra e glória:
Postoque o pensamento
Occupado tenhais na guerra infesta,
Ou co'o sanguinolento
Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,
Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,
Que qualquer delles teme o nome vosso;
Favorecei a antiga
Sciencia que ja Achilles estimou;
Olhae que vos obriga
O ver qu'em vosso tempo rebentou
O fructo daquell'Orta onde florecem
Plantas novas, que os doctos não conhecem.
Olhae qu'em vossos anos
Huma Orta produze várias hervas
Nos campos Indianos,
As quaes aquellas doctas e protervas,[{380}]
Medêa e Circe, nunca conhecêrão,
Postoque a lei da Magica excedêrão.
E vêde carregado
D'annos e traz a vária experiencia
Hum velho, qu'ensinado
Das Gangeticas Musas na sciencia
Podaliria subtil, e arte sylvestre,
Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.
O qual está pedindo
Vosso favor e amparo ao grão volume,
Qu'impresso á luz sahindo,
Dara da Medicina hum vivo lume;
E descobrir-nos-ha segredos certos,
A todos os Antiguos encobertos.
Assi que não podeis
Negar a que vos pede benigna aura:
Que se muito valeis
Na sanguinosa guerra Turca e Maura,
Ajudae quem ajuda contra a morte;
E sereis semelhante ao Grego forte.
[ODE IX.]
Fogem as neves frias
Dos altos montes quando reverdecem
As árvores sombrias;
As verdes hervas crecem,
E o prado ameno de mil côres tecem.[{381}]
Zephyro brando espíra;
Suas settas Amor afia agora;
Progne triste suspira,
E Philomela chora:
O ceo da fresca terra se namora.
Ja a linda Cytherêa
Vem, do côro das Nymphas rodeada;
A branca Pasitêa Despida e delicada,
Com as duas irmãas acompanhada.
Em quanto as officinas
Dos Cyclopas Vulcano está queimando,
Vão colhendo boninas
As Nymphas, e cantando,
A terra co'o ligeiro pé tocando.
Desce do aspero monte
Diana, ja cansada da espessura,
Buscando a clara fonte,
Onde por sorte dura
Perdeo Actêo a natural figura.
Assi se vai passando
A verde Primavera e o sêcco Estio;
O Outono vem entrando;
E logo o Inverno frio,
Que tambem passará por certo fio.
Ir-se-ha embranquecendo
Com a frigida neve o sêcco monte;
E Jupiter chovendo
Turbará a clara fonte:
Temerá o marinheiro a Orionte.
Porque, emfim, tudo passa;[{382}]
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apressada,
Que quando se começa he acabada.
Que se fez dos Troianos
Heitor temido, Enêas piedoso?
Consumírão-te os anos,
Ó Cresso tão famoso,
Sem te valer teu ouro precioso.
Todo o contentamento
Crias qu'estava em ter thesouro ufano!
Oh falso pensamento!
Que á custa de teu dano
Do sabio Solon crêste o desengano.
O bem que aqui se alcança,
Não dura por passante, nem por forte:
Que a bem-aventurança
Duravel, de outra sorte
Se ha de alcançar na vida para a morte.
Porque, emfim, nada basta
Contra o terrivel fim da noite eterna;
Nem póde a deosa casta
Tornar á luz superna
Hippolyto da escura sombra averna.
Nem Thesêo esforçado,
Ou com manha, ou com fôrça valerosa,
Livrar póde o ousado
Perithoo da espantosa
Prisão Lethêa escura e tenebrosa.[{383}]