FILODEMO.

Porque?

VILARDO.

Porque ha d'assentar
Que se não for com pão quente,
Não ha de desaferrar.

FILODEMO.

Ora hi pelo que vos mando,
Villão feito de fermento. Sahe Vilardo.
Triste do que vive amando
Sem ter outro mantimento,
Qu'estar só phantasiando!
Só hũa cousa me desculpa
Deste cuidado que sigo,
Ser de tamanho perigo,
Que cuido que a mesma culpa
Me fica sendo castigo. [{389}]

Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante

FILODEMO.

Ora quero praticar
Só comigo hum pouco aqui;
Que despois que me perdi,
Desejo de me tomar
Estreita conta de mi.
Vae para fóra, Vilardo.
Torna cá: vae-me saber
Se se quer ja lá erguer
O Senhor Dom Lusidardo,
E vem-mo logo dizer. Vai-se o moço.
Ora bem, minha ousadia,
Sem azas, pouco segura,
Quem vos deo tanta valia,
Que subais a phantasia
Onde não sobe a ventura?
Por ventura eu não nasci
No mato, sem mais valer,
Que o gado ao pasto trazer?
Pois donde me veio a mi
Saber-me tão bem perder?
Eu, nascido entre pastores,
Fui trazido dos currais,
E d'entre meus naturais
Para casa dos Senhores,
Donde vim a valer mais.
E agora logo tão cedo
Quiz mostrar a condição
De rustico e de villão!
Dando-me ventura o dedo, [{390}]
Lhe quero tomar a mão!
Mas oh! qu'isto não he assi,
Nem são villãos meus cuidados,
Como eu delles entendi;
Mas antes, de sublimados,
Os não posso crer de mi.
Porque como hei eu de crer
Que me faça minha estrella
Tão alta pena soffrer,
Que somente pola ter
Mereço a gloria della?
Senão se amor, d'attentado,
Porque me não queixe delle,
Tẽe por ventura ordenado
Que mereça o meu cuidado,
Só por ter cuidado nelle.

SCENA II.