VILARDO .

Ora boa está a cilada
De meu amo com sua ama,
Que se levantou da cama
Por ouvi-lo! Está tomada:
Assi a tome má trama.
E mais crede que quem canta,
Ainda descantará;
E quem do leito, onde está,
Por ouvi-lo se levanta,
Mor desatino fará.
Quem havia de cuidar,
Que dama formosa e bella
Saltasse o demonio nella,
Para a fazer namorar
De quem não he igual della?
Que me dizeis a Solina?
Como se faz Celestina, [{404}]
Que por não lhe haver inveja
Tambem para si deseja
O que o desejo lh'ensina!
Crede que se me alvoróço,
Que a hei de tomar por dama;
E não será grão destrôço,
Pois o amo quer a ama,
Que a moça queira o moço.
Vou-me; que vejo lá vir
Venadoro, apercebido
Para a caça se partir:
E voto a tal, que he partido
Para ver e para ouvir.
Que he razão justa e rasa
Que seu folgar se desconte
Em quem arde como brasa;
Que se vai caçar ao monte,
Fique outrem caçando em casa.

SCENA VIII.

VENADORO .

Aprovada antiguamente
Foi, e muito de louvar
A occupação do caçar,
E da mais antigua gente
Havida por singular.
He o mais contrário officio
Que tẽe a ociosidade,
Mãe de todo o bruto vício: [{405}]
Por este limpo exercicio
Se reserva a castidade.
Este dos grandes Senhores
Foi sempre muito estimado;
E he grande parte do estado
Ter monteiros, caçadores,
Como officio qu'he prezado.
Pois logo porque razão
A meu pae ha de pezar
De me ver ir a caçar?
E tão boa occupação
Que mal me póde causar?

SCENA IX.

Venadoro e o Monteiro.

MONTEIRO.

Senhor, venho alvoroçado,
E mais com muita razão.

VENADORO.