Porque?

DURIANO.

Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a qualquer [{410}] destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de, vá v. m. co'a historia por diante.

FILODEMO.

Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.

DURIANO.

Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante.

FILODEMO.

Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.

DURIANO.