Ella alli, e o cão co'o osso!
Inda isto ha de vir a mais. [{415}]
Pois que tal odio lhe tem,
Fallemos, Senhora, em al;
Mas eu digo que ninguem
Merece por querer bem
Que a quem lho quer, queira mal.
DIONYSA.
Deixae-o vós doudejar.
Se meu pae, ou meu irmão,
O vierem a aventar,
Não ha elle de folgar.
SOLINA.
Deos meterá nisso a mão.
DIONYSA.
Ora hi polas almofadas,
Que quero hum pouco lavrar;
Por ter em que me occupar;
Qu'em cousas tão mal olhadas
Não se ha o tempo de gastar.
SOLINA.
Que cousa somos mulheres!
Como somos perigosas!
E mais estas tão viçosas
Qu'estão á boca que queres
E adoecem de mimosas!
Se eu não caminho agora
A seu desejo e vontade;
Como faz esta Senhora,
Fazem-se logo nessa hora
Na volta da honestidade.
Quem a vira o outro dia
Hum poucochinho agastada, [{416}]
Dar no chão com a almofada,
E enlevar a phantasia,
Toda n'outra transformada!
Outro dia lhe ouvirão
Lançar suspiros a mólhos,
E com a imaginação
Cahir-lhe a agulha da mão,
E as lagrimas dos olhos.
Ouvir-lhe-heis á derradeira
A ventura maldizer,
Porque a foi fazer mulher.
Então diz que quer ser Freira;
E não se sabe entender.
Então gaba-o de discreto,
De musico e bem disposto,
De bom corpo e de bom rosto.
Quanté então eu vos prometo,
Que não tẽe delle desgôsto.
Despois, se vem a attentar,
Diz que he muito mal feito
Amar homem deste geito;
E que não póde alcançar
Pôr seu desejo em effeito.
Logo se faz tão Senhora,
Logo lhe ameaça a vida,
Logo se mostra nessa hora
Muito segura de fóra,
E de dentro está sentida.
Bofé, segundo vou vendo,
Se esta postema vier,
Como eu suspeito, a crescer, [{417}]
Muito ha que della entendo
O fim que póde vir ter.