Digo que tardei lá fóra [{427}]
Em buscar esta almofada.
Que estava ella agora só
Comsigo phantasiando?

DIONYSA.

Bofé que estava cuidando
Qu'he muito para haver dó
Da mulher que vive amando.
Que hum homem póde passar
A vida mais occupado:
Com passear, com caçar,
Com correr, com cavalgar,
Fórra parte do cuidado.
Mas a coitada
Da mulher sempre encerrada,
Que não tẽe contentamento,
Não tẽe desenfadamento,
Mais que agulha e almofada?
Então isto vem parir
Os grandes erros da gente:
Forão mil vezes cahir
Princezas d'alta semente.
Lembra-me que ouvi contar
De tantas affeiçoadas
Em baixo e pobre lugar,
Que as que agora vão errar
Podem ficar desculpadas.

SOLINA.

Senhora, a muita affeição
Nas Princezas d'alto estado
Não he muita admiração;
Que no sangue delicado [{428}]
Faz amor mais impressão.
Mas deixando isto á parte,
Se m'ella quizer peitar,
Prometto de lhe mostrar
Huma cousa muito d'arte,
Que lá dentro fui achar.

DIONYSA.

Que cousa?

SOLINA.

Cousa d'esprito.

DIONYSA.