Certo que he de quem temo;
Que os ditos que nella achei
São todos de Filodemo.
Este homem, que atrevimento
He este que foi tomar?
Qual será seu fundamento?
Que mil vezes me faz dar
Mil voltas ao pensamento.
Não entendo delle nada.
Mas inda qu'isto he assi,
Disso que delle entendi,
Me sinto tão alterada,
Que me arreceio de mi.
Eu inda agora não creio
Que he verdade este amor;
Mas praza a Deos, se assi for,
Que inda este meu arreceio
Se não converta em temor. [{431}]

SOLINA.

Ja vós, ja sêdes,
Peixes, nas redes.
Senhora, quem mais confia,
Mais asinha a cahir vem:
Natural he o querer bem;
Que o amor n'alma se cria,
Sem o sentir quem o tem.
Filodemo, no que ouvi,
Tẽe-lhe sobeja affeição;
E postoque o creia assi,
Ou eu sonhei, ou ouvi.
Que era d'alta geração.
Logo na phisionomia,
Nas manhas, artes e geito,
Mostra mui grande respeito:
Nem tão alta phantasia
Não se põe em baixo peito.

DIONYSA.

Tudo isso cuido, e vi
Mil vezes miudamente;
Mas estas mostras assi
São desculpas para mi,
E não para toda a gente.

SOLINA.

O seu moço vejo vir
A nós, seu passo contado:
Este he muito para ouvir,
Que diz que me quer servir
D'amores esperdiçado. [{432}]

SCENA VII.

Vilardo, Solina e Dionysa.

VILARDO.