Polo meu apartamento
Se arrazárão todos d'ágoa.
Quem cuidou qu'em tanta mágoa
Achasse contentamento?
Julgue todo entendimento
Qual mais sentir se devia,
Se esta dor, se esta alegria?
Quando mais perdido estive,
Então deo a est'alma minha
Na maior mágoa que tinha,
O maior gôsto que tive.
Assi, se minha alma vive,
Foi porque me defendia
Desta dor esta alegria?
O bem, que Amor me não deu
No tempo que desejei,
Quando delle me apartei,
Me confessou, qu'era meu.
Agora que farei eu, [{91}]
Se a fortuna me desvia
De lograr esta alegria?
Não sei se foi enganado,
Pois me tinha defendido
Das íras de mal querido,
No mal de ser apartado.
Agora peno dobrado,
Achando no fim do dia
O princípio da alegria.
—oOo—
VILLANCETE PASTORIL.
Deos te salve, Vasco amigo.
Não me fallas? Como assi?
Bofé, Gil, não 'stava aqui.
Voltas.
Pois onde te hão de fallar,
Se não 'stás onde appareces?
Se Magdanela conheces,
Nella me pódes achar.
E como te hão d'ir buscar
Aonde fogem de ti?
Pois nem eu estou em mi.
Porque te não acharei
Em ti, como em Magdanela?
Porque me fui perder nella
O dia que me ganhei.
Quem tão bem falla, não sei
Como anda fóra de si.
Ella falla dentro em mi. [{92}]
Como estás aqui presente,
Se lá tens a alma e a vida?
Porqu'he d'hum'alma perdida
Apparecer sempre á gente.
Se es morto, bem se consente
Que todos fujão de ti.
Eu tambem fujo de mi.
—oOo—
OUTRO PASTORIL.
Porque no miras, Giraldo,
Mi zampoña como suena?
Porque no me mira Elena.
Voltas.