A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.

Mote.

A morte, pois que sou vosso,
Não a quero; mas se vem,
Ha de ser todo meu bem.

Glosa.

Amor, qu'em meu pensamento
Com tanta fé se fundou, [{114}]
Me tẽe dado hum regimento,
Que quando vir meu tormento
Me salve com cujo sou.
E com esta defensão,
Com que tudo vencer posso,
Diz a causa ao coração:
Não tẽe em mi jurdição
A morte, pois que sou vosso.
Por exprimentar hum dia
Amor se me achava forte
Nesta fé, como dizia,
Me convidou com a morte,
Só por ver se a temeria.
E como ella seja a cousa
Onde está todo meu bem,
Respondi-lhe, como quem
Quer dizer mais, e não ousa:
Não a quero, mas se vem...
Não disse mais, porque então
Entendeo quanto me toca;
E se tinha dito o não,
Muitas vezes diz a boca,
O que nega o coração.
Toda a cousa defendida
Em mais estima se tem:
Por isso he cousa sabida,
Que perder por vós a vida
Ha de ser todo meu bem.

—oOo—

Á MESMA DAMA.

Vejo-a n'alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo.

Glosa.

Se só de ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excellente
Mal poderei ser ausente,
Em quanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada,
E a memoria tanto voa,
Que se a não vejo em pessoa,
Vejo-a n'alma pintada.
O desejo, que s'estende
Ao que menos se concede,
Sôbre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, qu'em ausencia vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Qu'então não tenho que dar,
Quando me pede o desejo.
Como áquelle que cegou,
He cousa vista e notoria,
Que a natureza ordenou
Que se lhe dobre em memoria
O qu'em vista lhe faltou:
Assi a mi, que não vejo [{116}]
Co'os olhos o que desejo,
Na memoria e na firmeza
Me concede a natureza
O natural que não vejo.