LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
Corre sem vela e sem leme
O tempo desordenado,
D'hum grande vento levado:
O que perigo não teme,
He de pouco exprimentado.
As redeas trazem na mão
Os que redeas não tiverão:
Vendo quanto mal fizerão
A cobiça e ambição,
Disfarçados se acolhêrão.
A nao, que se vai perder,
Destrue mil esperanças: [{34}]
Vejo o mao que vem a ter;
Vejo perigos correr
Quem não cuida que ha mudanças.
Os que nunca em sella andárão,
Na sella postos se vem:
De fazer mal não deixárão;
De demonio hábito tem
Os que o justo profanárão.
Que poderá vir a ser
O mal nunca refreado?
Anda, por certo, enganado
Aquelle que quer valer,
Levando o caminho errado.
He para os bons confusão,
Ver que os maos prevalecêrão;
Que, pôsto se detiverão
Com esta simulação,
Sempre castigos tiverão:
Não porque governe o leme
Em mar envolto e turbado,
Que tẽe seu rumo mudado,
Se perece grita e geme
Em tempo desordenado.
Terem justo galardão,
E dor dos que merecêrão,
Sempre castigos tiverão
Sem nenhuma redempção,
Postoque se detiverão.
Na tormenta, se vier,
Desespere na bonança,
Quem manhas não sabe ter: [{35}]
Sem que lhe valha gemer,
Verá falsar a balança.
Os que nunca trabalhárão,
Tendo o que lhe não convem,
Se ao innocente enganárão,
Perderão o eterno bem,
Se do mal não s'apartárão.
[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.
Nota dos editores.
—oOo—
CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:
Se não quereis padecer
Huma, ou duas horas tristes,
Sabeis que haveis de fazer?
Volveros por dó venistes,
Que aqui não ha que comer.
E, postoque aqui leais
Trovinha que vos enleia,
Corrido não estejais;
Porque por mais que corrais,
Não heis de alcançar a ceia.
A segunda a D. Francisco de Almeida.
Heliogabalo zombava
Das pessoas convidadas;
E de sorte as enganava,
Que as iguarias que dava,
Vinhão nos pratos pintadas. [{36}]
Não temais tal travessura,
Pois ja não póde ser nova;
Porque a cêa está segura
De vos não vir em pintura;
Mas ha de vir toda em trova.