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MOTE.
Retrato, vós não sois meu;
Retratárão-vos mui mal;
Que a serdes meu natural,
Foreis mofino como eu.
Glosa.
Indaqu'em vós a arte vença
O que o natural tẽe dado,
Não fostes bem retratado;
Que ha em vós mais differença,
Que no vivo do pintado.
Se o lugar se considera
Do alto estado, que vos deu
A sorte, qu'eu mais quizera;
Se he qu'eu sou quem d'antes era,
Retrato, vós não sois meu.
Vós na vossa glória pôsto,
Eu na minha sepultura, [{124}]
Vós com bens, eu com desgôsto;
Pareceis-vos ao meu rosto,
E não ja á minha ventura.
E pois nella e vós errarão
O qu'em mi he principal,
Muito em ambos s'enganárão.
Se por mi vós retratárão,
Retratárão-vos mui mal.
Mas se esse rosto fingido
Quizerão representar,
E houverão por bom partido
Dar-vos a alma do sentido
Para a glória do lugar;
Víreis, pôsto nessa alteza,
Que vos não ha cousa igual;
E que nem a maior mal
Podeis vir, nem mor baixeza,
Que a serdes meu natural.
Por isso não confesseis
Serdes meu, qu'he desatino,
Com que o lugar perdereis:
Se conservar-vos quereis,
Blazonae que sois divino.
Que se nesta occasião
Conhecessem qu'ereis meu,
Por meu vos derão de mão,
. . . . . . . . . .
Fôreis mofino, como eu. [{125}]
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MOTE.
Foi-se gastando a esperança,
Fui entendendo os enganos;
Do mal ficárão-me os danos,
E do bem só a lembrança.
Glosa.
Nunca em prazeres passados
Tive firmeza segura.
Antes tão arrebatados,
Qu'inda não erão chegados,
Quando mos levou ventura.
E como quem desconfia
Ter em tal sorte mudança,
No meio desta porfia,
De quanto bem pretendia
Foi-se gastando a esperança.
Não tive por desatino
A occasião de perdella;
Mas foi culpa do destino,
Que a ninguem, como mais dino,
Amor pudéra sostella.
Dei-lhe tudo o qu'era seu,
Não receando taes danos
Deste, a quem alma lhe deu:
Quando ja não era meu,
Fui entendendo os enganos.
Fiquei deste mal sobejo
A quem a causa compete
Dizer-lhe tudo o que vejo,
Que Amor acceita o desejo,
Mas mente no que promete. [{126}]
Que se a mi se me obrigou
A dar-me bens soberanos,
Foi engano que ordenou;
Que do bem tudo levou,
Do mal ficárão-me os danos.
E se dor tão desigual
Soffro em mi com padecellos,
Quero de novo soffrellos;
Que por a causa ser tal,
Não determino offendellos.
Dobre-se o mal, falte a vida,
Cresça a fé, falte a esperança,
Pois foi mal agradecida;
Fique a dor n'alma imprimida,
E do bem só a lembrança.