Vida da minha alma,
Não vos posso ver:
Isto não he vida
Para se soffrer.

Voltas.

Quando vos eu via,
Esse bem lograva,
A vida estimava,
Pois então vivia;
Porque vos servia
Só para vos ver.
Ja que vos não vejo
Para qu'he viver?
Vivo sem razão,
Porqu'em minha dor
Não a poz Amor;
Que inimigos são.
Mui grande traição
Me obriga a fazer
Que viva, Senhora,
Sem vos poder ver.
Não me atrevo ja,
Minha tão querida,
A chamar-vos vida,
Porque a tenho má. [{136}]
Ninguem cuidará,
Que isto póde ser,
Sendo-me vós vida,
Não poder viver.

—oOo—

MOTE.

Coifa de beirame
Namorou Joanne.

Voltas.

Por cousa tão pouca
Andas namorado?
Amas o toucado,
E não quem o touca?
Ando cega e louca
Por ti, meu Joanne,
Tu pelo beirame.
Amas o vestido?
Es falso amador.
Tu não vês que Amor
Se pinta despido?
Cego e mui perdido
Andas por beirame,
E eu por ti, Joanne.
A todos encanta
Tua parvoice;
De tua doudice
Gonçalo s'espanta,
E zombando canta:
Coifa de beirame,
Namorou Joanne. [{137}]
Eu não sei que viste
Neste meu toucado,
Que tão namorado
Delle te sentiste.
Não te veja triste;
Ama-me, Joanne,
E deixa o beirame.
Joanne gemia,
Maria chorava,
E assi lamentava
O mal que sentia:
(Os olhos feria,
E não o beirame,
Que matou Joanne)
Não sei do que vem
Amares vestido;
Que o mesmo Cupido
Vestido não tem.
Sabes de que vem
Amares beirame?
Vem de ser Joanne.

—oOo—

MOTE.