Verdes são as hortas
Com rosas e flores:
Moças, que as régão,
Matão-me d'amores.
Voltas.
Entre estes penedos
Que daqui parecem,
Verdes hervas crescem,
Altos arvoredos.
Vai destes rochedos
Ágoa, com que as flores
D'outras são regadas,
Que mátão d'amores.
Com ágoa, que cai
Daquella espessura, [{140}]
Outra se mistura,
Que dos olhos sai:
Toda junta vai
Regar brancas flores;
Onde ha outros olhos,
Que mátão d'amores.
Celestes jardins,
As flores estrellas:
Hortelôas dellas
São huns seraphins.
Rosas e jasmins
De diversas côres,
Anjos, que as régão,
Mátão-me d'amores.
—oOo—
ALHEIO.
Menina formosa,
Dizei de que vem
Serdes rigorosa
A quem vos quer bem?
Voltas.
Não sei quem assella
Vossa formosura;
Que quem he tão dura
Não póde ser bella.
Vós sereis formosa;
Mas a razão tem
Que quem he irosa,
Não parece bem. [{141}]
A mostra he de bella,
As obras são cruas:
Pois qual destas duas
Ficará na sella?
Se ficar irosa,
Não vos está bem:
Fique antes formosa,
Que mais fôrça tem.
O Amor formoso
Se pinta e se chama:
Se he amor, ama,
Se ama, he piedoso.
Diz agora a grosa
Que este texto tem,
Que quem he formosa
Ha de querer bem.
Havei dó, menina,
Dessa formosura;
Que se a terra he dura,
Secca-se a bonina.
Sêde piedosa;
Não veja ninguem
Que por rigorosa
Percais tanto bem.
—oOo—
ALHEIO.