De modo filha minha, que de geito,
Amoſtrarão esforço mais que humano,
Que nunca ſe vera tam forte peito,
Do Gangetico mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito,
Que moſtrou o agrauado Luſitano:
Poſto que em todo o mundo, de affrontados
Reſucitaſſem todos os paſſados.
Como isto diſſe, manda o conſagrado
Filho de Maia aa terra, porque tenha,
Hum pacifico porto, & ſoſſegado,
Pera onde ſem receyo a frota venha:
E pera que em Mombaça, auenturado
O forte Capitão ſe não detenha,
Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe
A terra, onde quieto repouſaſſe.
Ia pelo ar o Cylenêo voaua,
Com as aſas nos pês aa terra deçe,
Sua vara fatal na mão leuaua,
Com que os olhos canſados adormece:
Com eſta, as triſtes almas reuocaua,
Do Inferno, & o vento lhe obedeçe.
Na cabeça o galêro coſtumado,
E deſta arte a Melinde foy chegado.
Conſigo a Fama leua, porque diga,
Do Luſitano, o preço grande, & raro,
Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga,
E faz a quem o tem, amado & caro.
Deſta arte vay fazendo a gente amiga,
Co rumor famoſiſsimo, & perclaro.
Ia Melinde em deſejos arde todo,
De ver da gente forte o gesto, & modo.
Dali pera Mombaça logo parte,
Aonde as naos eſtauão temeroſas,
Pera que aa gente mando que ſe aparte
Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas:
Porque muy pouco val esforço, & arte,
Contra infernais vontades enganoſas:
Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo,
Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo.
Meyo caminho a noite tinha andado,
E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia,
Tinhão o largo Mundo alumiado,
E ſo co ſono a gente ſe recreia.
O Capitão illuſtre, ja canſado,
De vigiar a noite, que arreceia,
Breue repouſo antam aos olhos daua,
A outra gente a quartos vigiaua.
Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe,
Dizendo, fuge, fuge Luſitano,
Da cilada que o Rei malicado teçe,
Por te trazer ao fim, & extremo dano,
Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe,
Sereno o tempo tẽs, & o Occeano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes ſeguro agaſalharte.
Não tens aqui ſe não aparelhado,
O hoſpicio que o cru Diomedes daua,
Fazendo ſer manjar acostumado,
De cauallos a gente que hoſpedaua:
As aras do Buſiris infamado,
Onde os hoſpedes tristes imolaua
Teràs certas aqui ſe muito eſperas,
Fuge das gentes perfidas & feras.
Vaite ao longo da coſta diſcorrendo,
E outra terra acharàs de mais verdade
La quaſi junto donde o Sol ardendo,
Iguala o dia, & noite em quantidade:
Ali tua frota alegre recebendo
Hum Rei, com muitas obras de amizade,
Gaſalhado ſeguro te daria,
E pera a India certa & ſabia guia.
Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua
Ao Capitão, que com muy grande eſpanto
Acorda, & ve ferida a eſcura treua,
De hũa ſubita luz, & rayo ſancto:
E vendo claro quanto lhe releua,
Não ſe deter na terra iniqua tanto.
Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua,
Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua.