Entre eſte Mar, & o Tanais viue eſtranha
Gente, Ruthenos, Moſcos, & Liuonios,
Sarmatas outro tempo, & na montanha
Hircinia, os Marcomanos ſam Polonios
Sugeitos ao Imperio de Alemanha,
Sam Saxones, Boemios, & Panonios,
E outras varias nações, que o Reno frio
Laua, & o Danubio, Amaſis, & Albis Rio.

Entre o remoto Iſtro, & o claro eſtreito,
Aonde Hele deixou, co nome, a vida,
Estão os Traces de robuſto peito,
Do fero Marte, patria tam querida,
Onde co Hemo, o Rodope ſugeito
Ao Otomano està, que ſometida,
Bizancio tem a ſeu ſeruiço indino,
Boa injuria do grande Coſtantino.

Logo de Macedonia eſtão as gentes,
A quem laua do Axio a agoa fria:
E vos tamhem, o terras excelentes,
Nos coſtumes, engenhos, & ouſadia,
Que criaſtes os peitos eloquentes,
E os juizos de alta fantaſia:
Com quem tu clara Grecia o Ceo penetras,
E não menos por armas, que por letras.

Logo os Dalmatas viuem, & no ſeio,
Onde Antenor ja muros leuantou,
A ſoberba Veneza eſtâ no meio
Das agoas, que tam baxa começou
Da terra, hum braço vem ao mar, que cheio
De esforço, nações varias ſogeitou,
Braço forte, de gente ſublimada,
Não menos nos engenhos que na eſpada.

Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Cos muros naturais, por outra parte,
Pela meyo o diuide o Apinino,
Que tam illuſtre fez o patrio Marte:
Mas deſpois que o porteiro tem diuino,
Perdendo o esforço veio, & bellica arte:
Pobre eſtà ja de antiga poteſtade,
Tanto Deos ſe contenta de humildade.

Galia ali ſe verà, que nomeada,
Cos Ceſareos Triumfos foy no mundo,
Que do Sequana, & Rôdano he regada,
E do Garuna frio, & Reno fundo:
Logo os montes da Nimpha ſepultada
Pyrene ſe aleuantão, que ſegundo
Antiguidades contão, quando arderão,
Rios de ouro, & de prata antão corrèrão.

Eis aqui ſe deſcobre a nobre Eſpanha,
Como cabeça ali de Europa toda,
Em cujo ſenhorio & gloria eſtranha,
Muitas voltas tem dado a fatal roda:
Mas nunca poderà, com força, ou manha,
A fortuna inquieta porlhe noda:
Que lha não tire o esforço & ouſadia,
Dos belicoſos peitos, que em ſi cria.

Com Tingitania enteſta, & ali parece
Que quer fechar o mar Mediterrano,
Onde o ſabido estreito ſe ennobrece,
Co extremo trabalho do Thebano:
Com nações differentes ſe engrandece,
Cercadas com as ondas do Occeano.
Todas de tal nobreza, & tal valor,
Que qualquer dellas cuida que he milhor.

Tem o Tarragones, que ſe fez claro,
Sujeitando Partênope inquieta,
O Nauarro, as Aſturias, que reparo
Ia forão, contra a gente Mohometa,
Tem o Galego cauto, & o grande & raro
Caſtelhano, a quem fez o ſeu Planeta,
Restituidor de Eſpanha, & ſenhor della,
Bethis, Lião, Granada, com Castella.

Eis aqui quaſi cume da cabeça,
De Europa toda, o Reino Luſitano,
Onde a Terra ſe acaba, & o Mar começa,
E onde Febo repouſa no Occeano:
Eſte quis o Ceo juſto, que ſloreça
Nas armas, contra o torpe Mauritano,
Deitando o de ſi fora, & la na ardente
Affrica eſtar quieto o nam conſente.