Eu que bem mal cuidaua que em effeito
Se poſeſſe o que o peito me pedia,
Que ſempre grandes couſas deste geito
Preſago o coração me prometia:
Não ſey porque razão, porque reſpeito,
Ou porque bom ſinal que em mi ſe via,
Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue
Deſte cometimento grande, & graue.
E com rogo & palauras amoroſas
Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga,
Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas
Se alcanção com trabalho & com fadiga:
Faz as peſſoas altas & famoſas
A vida que ſe perde & que periga,
Que quando ao medo infame não ſe rende
Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.
Eu vos tenho entre todos eſcolhido
Para hũa empreſa qual a vos ſe deue,
Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido,
O que eu ſey que por mi vos ſera leue:
Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido,
Auenturarme a ferro, a fogo, a neue,
He tão pouco por vos que mais me pena
Ser eſta vida couſa tão pequena.
Imaginay tamanhas auenturas
Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua,
O lião Cleonêo, Arpias duras
O porco de Erimanto, a Ydra braua:
Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras
Onde os campos de Dite a Eſtige laua,
Porque a mayor perigo, a môr affronta
Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.
Com merces ſumptuoſas me agardece
E com razoẽs me louua eſta vontade,
Que a virtude louuada viue & crece,
E o louuor altos caſos perſuade:
A acompanharme logo ſe offerece
Obrigado damor & damizade,
Não menos cobiçoſo de honra & fama,
O charo meu Irmão Paulo da Gama.
Mais ſe me ajunta Nicolao Coello
De trabalhos muy grande ſoffredor,
Ambos ſam de valia & de conſelho
Dexperiencia em armas & furor:
Ia de manceba gente me aparelho
Em que crece o deſejo do valer,
Todos de grande esforço, & aſsi parece
Quem a tamanhas couſas ſe offerece.
Forão de Emanoel remunerados,
Porque com mais amor ſe apercebeſſem,
E com palauras altas animados
Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem:
Aſsi forão o Mynias ajuntados
Pera que o veo dourado combateſſem,
Na Fatidiça nao, que ouſou primeira
Tentar o mar Euxinio, auentureira.
E ja no porto da inclita Vliſſea
Cum aluoroço nobre, & cum deſejo,
(Onde o licor meſtura & branca area
Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:)
As naos preſtes eſtão, & não refrea
Temor nenhum o iuuenil deſpejo,
Porque a gente maritima & a de Marte
Eſtão pera ſeguirme a toda parte.
Pellas prayas vestidos os ſoldados
De varias cores vem, & varias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buſcar do mundo nouas partes:
Nas fortes naos os ventos ſoſſegados
Ondeão os aerios estandartes,
Ellas prometem vendo os mares largos
De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.
Deſpois de aparelhados deſta ſorte
De quanto tal viagem pede & manda,
Aparelhamos a alma pera a morte
Que ſempre aos nautas ante os olhos anda:
Pera o ſumo poder que a Etherea corte
Soſtenta ſo coa vista veneranda,
Imploramos fauor que nos guiaſſe
E que noſſos começos aſpiraſſe.