Ia a vista pouco & pouco ſe desterra
Daquelles patrios montes que ficauão,
Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra
De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão:
Ficauanos tambem na amada terra
O coração, que as magoas lâ diyxauão,
E ja deſpois que toda ſe eſcondeo
Não vimos mais em fim que mar & ceo.

Aſsi fomos abrindo aquelles mares
Que geração algũa não abrio,
As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares,
Que o generoſo Enrique deſcobrio:
De Mauritania os montes & lugares
Terra que Anteo num tempo poſſuyo,
Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita
Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.

Paſſamos a grande Ilha da madeira
Que do muito aruoredo aſsi ſe chama,
Das que nos pouoamos, a primeira,
Mais celebre por nome, que por fama:
Mas nem por ſer do mundo a derradeira
Se lhe auentajão quantas Venus ama,
Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera
De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.

Deixamos de Maſsilia a eſteril costa
Onde ſeu gado os Azenegues pastão,
Gente que as freſcas agoas nunca goſta
Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão:
A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta,
Onde as aues no ventre o ferro gastão,
Padecendo de tudo extrema inopia
Que aparta a Barbarîa de Etiopia.

Paſſamos o lemite aonde chega
O Sol, que pera o Norte os carros guia,
Onde jazem os pouos, a quem nega
O filho de Climêne a cor do dia:
Aqui gentes eſtranhas laua & rega
Do negro Sanagâ a corrente fria,
Onde o Cabo Arſinario o nome perde
Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.

Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas
Que tiuerão por nome Fortunadas,
Entramos nauegando pollas filhas
Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas
Terras por onde nouas marauilhas
Andarão vendo jaa noſſas armadas,
Ali tomamos porto com bom vento
Por tomarmos da terra mantimento.

A aquella ilha aportamos, que tomou
O nome do guerreiro Sanctiago,
Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou
A fazerem nos Mouros brauo eſtrago:
Daqui tanto que Boreas nos ventou
Tornamos a cortar o immenſo lago,
Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos
A terra onde o refreſco doce achamos.

Por aqui rodeando a larga parte
De Africa, que ficaua ao Oriente,
A prouincia lalofo, que reparte
Por diuerſas naçoẽs a negra gente:
A muy grande Mandinga, por cuja arte,
Logramos o metal rico & luzente,
Que do curuo Gambea as agoas bebe
As quaes o largo Atlantico recebe.

As Dorcadas paſſamos, pouoadas
Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião,
Que de vista total ſendo priuadas
Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião:
Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas
Neptuno la nas agoas acendião,
Torna la ja de todas a mais fea
De biuoras encheſte a ardente area.

Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa
No grandiſsimo golfão nos metemos,
Deixando a ſerra aſperrima Lyoa
Co Cabo a quem das Palmas nome demos:
O grande rio, onde batendo ſoa
O mar nas prayas notas, que ali temos,
Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou
O nome dhum que o lado a Deos tocou.