Vinha por outra parte a linda eſpoſa
De Neptuno, de Celo & Veſta filha,
Graue & leda no gesto, & tão fermoſa
Que ſe amanſaua o mar de marauilha:
Veſtida hũa camiſa precioſa
Trazia de delgada beatilha,
Que o corpo cristalino dexa verſe,
Que tanto bem não he para eſconderſe.

Anfitrite fermoſa como as ſlores,
Neſte caſo não quis que faleceſſe,
O Delfim traz conſigo, que aos amores
Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe:
Cos olhos que de tudo ſam ſenhores
Qualquer parecera que o Sol venceſſe,
Ambas vem pella mão, ygoal partido
Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.

Aquella que das furias de Atamante
Fugindo, veyo a ter diuino eſtado,
Conſigo traz o filho, belli Infante,
No numero dos Deoſes relatado.
Pella praya brincando vem diante
Com as lindas conchinhas, que o ſalgado
Mar ſempre cria, & aas vezes pella area
No colo o toma a bella Panopea.

E o Deos que foy num tempo corpo humano,
E por virtude da erua poderoſa
Foy conuertido em pexe, & deſte dano
Lhe reſultou deidade glorioſa,
Inda vinha chorando o feio engano,
Que Circes tinha vſado coa fermoſa
Scylla, que elle ama, desta ſendo amado
Que a mais obriga amor mal empregado.

Ia finalmente todos aſſentados
Na grande ſala nobre & diuinal,
As Deoſas em riquiſsimos eſtrados,
Os Deoſes em cadeiras de cristal:
Forão todos do Padre agaſalhados,
Que co Thebano tinha aſſento ygoal:
De fumos enche a caſa a rica maſſa
Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.

Eſtando ſoſſegado ja o tumulto
Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos,
Começa a deſcubrir do peito occulto,
A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos:
Hum pouco carregando ſe no vulto,
Dando moſtra de grandes ſentimentos,
So por dar aos de Luſo triſte morte
Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.

Princepe que de juro ſenhoreas
Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado,
Tu que as gentes da terra toda enfreas,
Que não paſſem o termo limitado:
E tu padre Oceano, que rodeas
O mundo vniuerſal, & o tens cercado:
E com juſto decreto aſsi parmites,
Que dentro viuão ſo de ſeus limites.

E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis
Injuria algũa em voſſo reino grande,
Que com castigo ygoal vos não vingueis,
De quemquer que por elle corra, & ande:
Que deſcuido foy este em que viueis?
Quem pode ſer que tanto vos abrande,
Os peitos, con razão endurecidos
Contra os humanos fracos & atreuidos?

Vistes que com grandiſsima ouſadia
Forão ja cometer o Ceo ſupremo,
Vistes aquella inſana fantaſia
De tentarem o mar com vella & remo:
Vistes, & ainda vemos cada dia,
Soberbas & inſolencias tais, que temo
Que do mar & do Ceo em poucos anos,
Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.

Vedes agora a fraca geracão
Que dhum vaſſallo meu o nome toma,
Com ſoberbo, & altiuo coração,
A vos, & a mi, & o mundo todo doma:
Vedes o voſſo mar cortando vão,
Mais do que fez a gente alta de Roma,
Vedes o voſſo reino deuaſſando
Os voſſos eſtatutos vão quebrando.