Vedes que tem por vſo & por decreto,
Do qual ſam tão inteiros obſeruantes,
Ajuntarem o exercito inquieto,
Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes.
Entre vos nunca deixa a fera Aleto
De ſamear cizanias repugnantes,
Olhay ſeſtais ſeguros de perigos,
Que elles & vos, ſois voſſos inimigos.

Se cobiça de grandes ſenhorios
Vos faz yr conquiſtar terras alheas,
Nam vedes que Pactolo & Hermo rios,
Ambos voluem auriferas areas,
Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios,
Affrica eſconde em ſi luzentes veas,
Mouauos ja ſe quer riqueza tanta,
Pois mouer vos não pode a caſa Sancta.

Aquellas inuenções feras & nouas,
De instrumentos mortais da artelharia,
Ia deuem de fazeras duras prouas,
Nos muros de Bizancio, & de Turquia:
Fazei que torne la aas ſilueſtres couas,
Dos Caspios montes, & da Citia fria,
A Turca geração, que multiplica
Na policia da voſſa Europa rica.

Gregos, Traces, Armenios, Georgianos
Bradando vos eſtão, que o pouo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do alcorão (duro tributo)
Em caſtigar.os feitos inhumanos
Vos gloriay de peito forte, & aſtuto,
E não queirais louuores arrogantes,
De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes.

Mas em tanto que cegos, & ſedentos
Andais de voſſo ſangue, o gente inſana,
Não faltarão Christãos atreuimentos,
Neſta pequena caſa Luſitana
De Affrica tem maritimos aſſentos,
He na Aſia mais que todas ſoberana,
Na quarta parte noua os campos ara,
E ſe mais mundo ouuera la chegâra.

E vejamos em tanto que aconteçe
Aaquelles tam famoſos nauegantes,
Deſpois que a branda Venus enfraqueçe
O furor vão dos ventos repugnantes:
Deſpois que a larga terra lhe apareçe,
Fim de ſuas perfias tam conſtantes,
Onde vẽ ſamear de Christo a ley,
E dar nouo coſtume, & nouo Rei.

Tanto que aa noua terra ſe chegârão,
Leues embarcações de peſcadores
Acharão, que o caminho lhe moſtrârão
De Calecu onde eram moradores:
Pera la logo as proas ſe inclinarão,
Porque esta era a cidade das milhores
Do Malabar milhor, onde viuia
O Rei que a terra toda poſſuia.

Alem do Indo jaz, & âquem do Gange,
Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo
Que pela parte Auſtralo mar abrange,
E pera o Norte o Emodio cauernoſo.
Iugo de Reis diuerſos o conſtrange
A varias leis: algũs o vicioſo
Mahoma, algũs os Idolos adorão,
Algũs os animais, que entre elles morão.

La bem no grande monte, que cortando
Tam larga terra, toda Aſia diſcorre,
Que nomes tam diuerſos vai tomando,
Segundo as regiões por onde corre,
As fontes ſaem, donde vem manando
Os rios, cuja gram corrente morre
No mar Indico, & cercão todo o peſo
Do terreno, fazendo o Cherſoneſo.

Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço
Say da larga terra hũa longa ponta
Quaſi piramidal , que no regaço
Do mar com Ceilão inſula confronta,
E junto donde naſce o largo braço
Gangetico, o rumor antigo conta.
Que os vizinhos da terra moradores
Do cheiro ſe mantem das finas flores.