Bramenes ſam os ſeus religioſos,
Nome antigo, & de grande preminencia,
Obſeruão os preceitos tam famoſos
Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia:
Nem matão couſa viua, & temeroſos
Das carnes tem grandiſsima abstinencia,
Somente no venereo ajuntamento
Tem mais licença, & menos regimento.

Gerais ſam as molheres: mas ſomente
Pera os da geração de ſeus maridos:
Ditoſa condiçam, ditoſa gente,
Que nam ſam de ciumes offendidos.
Eſtes & outros costumes variamente
Sam pelos Malabares admitidos,
A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo
Que as ondas podem dar da China ao Nilo.

Aſsi contaua o Mouro: mas vagando
Andaua a fama ja pela cidade,
Da vinda deſta gente estranha, guando
O Rei ſaber mandaua da verdade,
Ia vinham pelas ruas caminhando,
Rodeados de todo ſexo, & idade,
Os principaes que o Rei buſcar mandâra,
O Capitão da armada que chegâra.

Mas elle, que do Rei ja tem licença
Pera deſembarcar, acompanhado
Dos nobres Portugueſes ſem detença
Parte de ricos panos adornado:
Das cores a fermoſa diferença
A viſta alegra ao pouo aluoroçado,
O remo compaſſado fere frio
Agora o mar, despois o freſco rio.

Na praia hum regedor do Reino eſtaua,
Que na ſua lingoa Catual ſe chama,
Rodeado de Naires, que eſperaua
Com deſuſada feſta o nobre Gama:
Ia na terra nos braços o leuaua,
E num partatil leito hũa rica cama
Lhe offereçe em que va, costume vſado,
Que nos hombros dos homẽs he leuado.

Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo,
Caminhão la pera onde o Rei o eſpera:
Os outros Portagueſes vão ao vſo
Que infantaria ſegne eſquadra fera:
O pouo que concorre vay confuſo
De ver a gente estranha, & bem quiſera
Perguntar: mas no tempo ja paſſado
Na torre de Babel lhe foi vedado.

O Gama, & o Catual hião fallando
Nas couſas que lhe o tempo offerecia,
Monçaide entrelles vay interpretando
As palauras que de ambos entendia:
Aſsi pela cidade caminhando,
Onde hũa rica fabrica ſe erguia
De hum ſumptuoſo templo ja chegauão,
Pelas portas do qual juntos entrauão.

Ali estam das deidades as figuras
Eſculpidas em pao, & em pedra fria,
Varias degeſtos, varias de pinturas,
A ſegundo o Demonio lhe fingia.
Vem ſe as abominaueis eſculturas,
Qual a Chimêra em membros ſe varia,
Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados
Em forma humana eſtam marauilhados.

Hum na cabeça cornos eſculpidos,
Qual Iupiter Amon em Lybia estaua,
Outro num corpo roſtos tinha vnidos,
Bem como o antigo Iano ſe pintaua:
Outro com muitos braços diuididos
A Briareo pareçe que imitaua:
Outro fronte Canina tem de fora,
Qual Anubis Menfitico ſe adora.

Aqui feita do barbaro gentio
A ſupersticioſa adoração,
Direitos vão ſem outro algum deſuio,
Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão:
Engroſſando ſe vay da gente o fio,
Cos que vem ver o eſtranho Capitão,
Eſtão pelos telhados & janellas
Velhos & moços, donas & donzellas.