Hum grande Rei, de la das partes, onde
O ceo volubil com perpetua roda
Da terra a luz ſolar coa terra eſconde,
Tingindo a que deixou de eſcura noda,
Ouuindo do rumor que la responde
O eco, como em ti da India toda
O principado eſtâ, & a mageſtade,
Vinculo quer contigo de amizade.

E por longos rodeos a ti manda,
Por te fazer ſaber que tudo aquillo
Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda
De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo:
E desda fria plaga de Gelanda,
Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo
Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia,
Tudo tem no ſeu Reino em grande copia.

E ſe queres com pactos, & lianças
De paz, & de amizade ſacra, & nua,
Comerçio conſentir das abundanças
Das fazendas da terra ſua, & tua,
Porque creção as rendas, & abaſtanças,
Por quem a gente mais trabalha & ſua,
De voſſos Reinos, ſera certamente
De ti proueito, & delle gloria ingente.

E ſendo aſsi que o nô deſta amizade,
Entre vos firmemente permaneça,
Estara prompto a toda aduerſidade,
Que por guerra a teu Reino ſe offereça:
Com gente, armas, & naos de qualidade
Que por yrmão te tenha, & te conheça,
E da vontade em ti ſobriſto poſta
Me des a my certiſsima reposta.

Tal embaxada daua o Capitão,
A quem o Rei gentio reſpondia,
Que em ver embaxadores de nação
Tam remota, gram gloria recebia:
Mas neſte caſo a vltima tençam
Com os de ſeu conſelho tomaria,
Informando ſe certo de quem era
O Rei, & a gente, & terra que diſſera.

E que em tanto podia do trabalho
Paſſado yr repouſar, & em tempo breue
Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho,
Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue:
Ia niſto punha a noite o vſado atalho
Aas humanas canſeiras, porque ceue
De doçe ſono os membros trabalhados,
Os olhos ocupando ao ocio dados.

Agaſalhados foram juntamente,
O Gama, & Portugueſes no apouſento
Do nobre Regedor da Indica gente,
Com festas & geral contentamento:
O Catual no cargo diligente
De ſeu Rei, tinha ja por regimento
Saber da gente eſtranha donde vinha
Que costumes, que lei, que terra tinha.

Tanto que os igneos carros do fermoſo
Mancebo Delio vio, que a luz renoua,
Manda chamar Monçaide, deſejoſo
De poder ſe informar da gente noua:
Ia lhe pergunta prompto & curioſo,
Se tem noticia inteira, & certa proua,
Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha
Que he gente de ſua patria muy vizinha.

Que particularmente ali lhe deſſe
Informação muy larga, pois fazia
Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe
O que neste negocio ſe faria:
Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe
Dizerte disto mais nam ſaberia,
Somente ſey que he gente la de Hespanha
Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha.

Tem a ley dum Propheta, que gerado
Foi ſem fazer na carne detrimento
Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado
Do Deos, que tem do mundo o regimento:
O que entre meus antigos he julgado
Delles, he que o valor ſanguinolento
Das armas, no ſeu braço reſplandeçe,
O que em noſſos paſſados ſe pareçe.