Agora com pobreza auorrecida,
Por hoſpicios alheios degradado,
Agora da eſperança ja adquirida,
De nouo mais que nunca derribado:
Agora aas costas eſcapando a vida,
Que dum fio pendia tam delgado,
Que não menos milagre foi ſaluarſe,
Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe.
E ainda Nimphas minhas não baſtaua,
Que tamanhas miſerias me cercaſſem:
Senão que aquelles que eu cantando andaua,
Tal premio de meus verſos me tornaſſem
A troco dos deſcanſos que eſparaua,
Das capellas de louro que me honraſſem,
Trabalhos nunca vſados me inuentârão,
Com que em tam duro eſtado me deitârão.
Vede Nimphas que engenhos de ſenhores
O voſſo Tejo cria valeroſos,
Que aſsi ſabem prezas com tais fauores
A quem os faz cantando glorioſos:
Que exemplos a futuros eſcriptores,
Pera eſpertar engenhos curioſos,
Pera porem as couſas em memoria,
Que merecerem ter eterna gloria.
Pois logo em tantos males he forçado,
Que ſo voſſo fauor me não falleça,
Principalmente aqui, que ſou chegado
Onde feitos diuerſos engrandeça:
Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado
Que não no empregue em quem o não mereça
Nem por liſonja louue algum ſubido,
Sob pena de não ſer agradecido.
Nem creais Nimphas nam que fama deſſe
A quem ao bem comum, & do ſeu Rei
Antepoſer ſeu proprio intereſſe:
Imigo da diuina & humana ley,
Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe
Subir a grandes cargos, cantarey,
So por poder com torpes exercicios
Vſar mais largamente de ſeus vicios.
Nenhum que vſe de ſeu poder bastante
Pera ſeruir a ſeu deſejo feio,
E que por comprazer ao vulgo errante
Se muda em mais figuras que Proteio,
Nem Camenas tambem cuideis que cante
Quem com habito honeſto & graue veio,
Por contentar o Rei no officio nouo,
A deſpir & roubar o pobre pouo.
Nem quem acha que he justo & que he dereito
Guardaſe a ley do Rei ſeueramente,
E não acha que he juſto & bom reſpeito,
Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente.
Nem quem ſempre com pouco experto peito
Razões aprende, & cuida que he prudente,
Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa,
Os trabalhos alheios, que nam paſſa.
Aquelles ſos direy que auenturârão
Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida
Onde perdendoa, em fama a dilatârão,
Tambem de ſuas obras merecida
Apolo, & as Muſas que me acompanharão,
Me dobraram a furia concedida
Em quanto eu tomo alento deſcanſado,
Por tornar ao trabalho mais folgado.
F I M.
❧ Canto Octauo.