Outros tambem ha grandes & abaſtados,
Sem nenhum tronco illuſtre donde venhão,
Culpa de Reis, que aas vezes a priuados
Dão mais que a mil, q̃ esforço & ſaber tenhã
Eſtes os ſeus nam querem ver pintados,
Crendo que cores vãs lhe não conuenhão,
E como a ſeu contrairo natural,
Aa pintura que falla querem mal.
Não nego que â com tudo deſcendentes
Do generoſo tronco, & caſa rica
Que com custumes altos & excellentes
Suſtentão a nobreza que lhe fica:
E ſe ha luz dos antigos ſeus parentes
Nelles mais o valor não clarifica,
Nam ſalta ao menos, nem ſe faz eſcura:
Mas destes acha poucos a pintura.
Aſsi eſtâ declarando os grandes feitos,
O Gama que ali moſtra a varia tinta,
Que a douta mão tam claros, tam perfeitos
Do ſingular artifice ali pinta:
Os olhos tinha promptos & dereitos,
O Catual na historia bem daſtinta,
Mil vezes perguntaua, & mil ouuia,
As goſtoſas batalhas que ali via.
Mas ja a luz ſe moſtraua duuidoſa,
Porque a alampada grande ſe eſcondia
Debaxo do Orizonte & luminoſa
Leuaua aos Antipodas o dia,
Quando o Gentio, & a gente generoſa,
Dos Naires, da nao forte ſe partia
A buſcar o repouſo que deſcanſa,
Os laſſos animais, na noite manſa.
Entre tanto os Aruſpices famoſos
Na falſa opinião, que em ſacrificios
Anteuem ſempre os caſos duuidoſos,
Por ſinais diabolicos, & indicios
Mandados do Rei proprio, eſtudioſos
Exercitauão a arte & ſeus officios,
Sobre esta vinda desta gente eſtranha,
Que aas ſuas terras vem da ignota Eſpanha.
Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
De como a noua gente lhe ſeria
Iugo perpetuo, eterno catiueiro,
Deſtruiçam de gente, & de valia:
Vaiſe eſpantado o atonito agoureiro
Dizer ao Rei (ſegundo o que entendia)
Os ſinais temeroſos que alcançâra
Nas entranhas das victimas que oulhara:
A iſto mais ſe ajunta que hum deuoto
Sacerdote da ley de Maphamede,
Dos odios concebidos nam remoto,
Contra a diuina Fe, que tudo excede,
Em forma do Propheta falſo & noto,
Que do filho da eſcraua Agar procede,
Baco odioſo em ſonhos lhe aparece,
Que de ſeus odios inda ſe nam deçe.
E diz lhe aſsi, guardaiuos gente minha,
Do mal que ſe aparelha pelo imigo
Que pelas agoas humidas caminha,
Antes que eſteis mais perto do perigo:
Isto dizendo acorda o Mouro aſinha,
Eſpantado do ſonho: mas conſigo
Cuida que não he mais que ſonho vſado
Torna a dormir quieto & ſoſegado.
Torna Bacho dizendo, nam conheces
O gram legiſlador que a teus paſſados
Tem moſtrado o preceito a que obedeces
Sem o qual foreis muitos baptizados?
Eu parti rudo vello, & tu adormeces?
Pois ſaberas que aquelles que chegados
De nouo ſam, ſeram muy grande dano
Da lei que eu dei ao neſcio pouo humano.
Em quanto he fraca a força deſta gente,
Ordena como em tudo ſe reſista,
Porque quando o Sol ſae facilmente
Se pode nelle por a aguda viſta:
Porem deſpois que ſobe claro & ardente,
Se agudeza dos olhos o conquiſta,
Tam cega fica, quanto ficareis
Se raizes criar lhe nam tolheis.