Que as immortalidades que fingia
A antiguidade, que os illuſtres ama,
La no estellante Olimpo a quem ſubia,
Sobre as aſas inclitas da fama,
Por obras valeroſas, que fazia,
Pelo trabalho immenſo, que ſe chama
Caminho da virtude alto & fragoſo:
Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.
Nam erão ſenão premios, que reparte
Por feitos imortais & ſoberanos,
O mundo, cos varões, que esforço & arte
Diuinos os fizerão, ſendo humanos:
Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte
Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos
Ceres, Palas, & Iuno, com Diana
Todos forão de fraca carne humana.
Mas a fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos
De Deoſes, Semideoſes immortais
Indigetes, Eroicos, & de Magnos
Por iſſo, o vos que as famas estimais,
Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos,
Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo,
Que o animo de liure faz eſcrauo.
E ponde na cobiça hum freio duro,
E na ambiçam tambem, que indignamente
Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro
Vicio da tirania infame, & vrgente:
Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro
Verdadeiro valor nam dão aa gente,
Milhor he merecellos, ſem os ter
Que poſſuilos ſem os mereçer.
Ou day na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos veſti nas armas rutilantes,
Contra a ley dos imigos Sarracenos,
Fareis os Reinos grandes, & poſſantes
E todos tereis mais, & nenhum menos
Poſſuireis riquezas merecidas,
Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.
E fareis claro o Rei, que tanto amais,
Agora cos conſelhos bem cuidados,
Agora co as eſpadas, que immortais
Vos farão, como os voſſos ja paſſados:
Impoſsibilidades não façais,
Que quem quis ſempre pode: & numerados
Sereis entre os Heroes eſclarecidos,
E neſta ilha de Venus recebidos.
F I M.
❧ Canto Decimo & vltimo.
Mas ja o claro ama-
dor da Lariſſea
Adultera, inclinaua os animais,
La para o grande lago, que rodea
Temiſtitão, nos fins Occidentais:
O grande ardor do Sol Fauonio enfrea,
Co ſopro, que nos tanques naturais
Encreſpa a agoa ſerena, & deſpertaua
Os Lirios, & Iazmins que a calma agraua.
Quando as fermoſas Ninfas cos amantes
Pella mão ja conformes & contentes,
Subião pera os paços radiantes,
E de metais ornados reluzentes:
Mandados da Rainha, que abundantes
Meſas, daltos manjares, excelentes,
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Reſtaurem da canſada natureza.