—Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito de rastos, Pedro, e alguma lingua ruim lh'o disse já ou lh'o ha de dizer.

—Invejas! fallatorios!... acudiu o genro entre dous frouxos de tosse.

—Pois sim!... Olha, não seria melhor offerecermos um nadinha mais pelas terras e ficarmos com ellas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a castanha na boca uma d'estas manhãs?!

—Nanja eu, tio! Sangue ninguem m'o tira á boa feição, e o dinheiro é sangue...

—Mas homem!?...

—Deixe lá, sr. sogro, não se metta a abelhudo aonde o não chamam, e deixe ir a agua ao moinho. Já alguem fallou em lhe levantar a renda da alcaidasia?...

—Não.

—Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração á larga. O que for soará.

Houve um minuto de pausa. Antonio Rodrigues coçava a nuca com o indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava sobre a taboa da meza com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da barba sumiam-se-lhe na golla alta do gibão, e os olhinhos, homisiados entre as palpebras{83} meio cerradas, luziam vivos e scintilantes como os do gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apprehensivo na apparencia, limpava os olhos chorosos com um quadrado de panno de linho, em quanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma nodoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se entendiam sem fallar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do mocho de pinho em que se assentava, colheu o cangirão pelas azas, sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dous canecos de louça. Levou depois o seu á boca, encurvando lentamente o braço, e despejou-o em poucos sorvos, emquanto o sobrinho, coleando primeiro a lingua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador consumado o nectar, que espumava na grosseira taça.

—Rapaz, isto não vai bom!... tornou Antonio Rodrigues com um suspiro. Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me abotou-o. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada d'ella.