—O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a falar com un estranho neste déshabillé tão pouco elegante...
—Elegantissimo, pelo contrario.
—O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu passeio pela chacara.
—Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou Estevão.
—É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.
E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:
—Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.
Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado, resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.
Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém, passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:
—Entro num drama ou saio de uma comedia?