—Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei porque. Não core! Olhe que se denuncia.
Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada. O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa que a fazia,—inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.
—Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa. Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a mim,—a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....
A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz que daquella garganta podia sair:
—Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,—ultimo se me não consentir mais falar-lhe nisto;—eu creio que a senhora sonha talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.
Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica resposta:
—Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão bons!
Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a ouvia o seu proprio coração:
—Sonhos, não, realidade pura.
Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da baroneza,—aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas do Gymnasio.