O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:
—Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?
—Nenhuma.
—Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima apenas, não póde haver outra cousa,—da minha parte ao menos. É pouco, de certo...
—Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.
—Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.
Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem essa já agora se lhe consentia.
—Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter ficado com a alma creança.
—Talvez, respondeu o moço suspirando.
—E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham termo a aspirações impossiveis.