Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu cerebro,—enfermo, ainda quando estava de saude.
A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Cajú. O prestito era triste,—ainda mais triste pela indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, paixões e esperanças.
—Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma dôr só, e é a liberdade.
Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.
Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a aurora do sexto dia, e com ella,—ou pouco depois della, uma carta de Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.
A carta era da baroneza.
A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da vida.
—Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.
—Disse-me que era por causa da demanda...
—Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.