Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da mulher que ama.

Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:

—Nem uma nem outra cousa.

—Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.

—Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos acceital-as do nosso destino.

Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.

Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.

Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.

Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura da baroneza.