Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.

—Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto interropido do dialogo.

—Vontade certamente, porque era necessidade.

—Necessidade,—tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade por que?

—Por uma razão muito simples, porque a amo.

A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:

—Pode sentar-se-agora; está seguro.

Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.

Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.

O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, severos, firmes e brilhantes.