Luiz Alves foi direito ao fim.

—Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, espero que apertarás a mão do teu amigo.

Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta e saiu.

—Estevão! gritou Luiz Alves.

Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.

Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o escripto.


[XVII]

A carta.44814481448144814481448144814481448144814481

Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra unica:—Peça-me,—escripta no centro da folha, com uma lettra fina, elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de commoção.