[LXXII]
Uma reforma dramatica.
Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra pessoa desta historia poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles chegam a seu tempo, até que o panno cae, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse genero ha porventura alguma cousa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Othello mataria a si e a Desdemona no primeiro acto, os tres seguintes seriam dados á acção lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria só com as scenas iniciaes da ameaça dos turcos, as explicações de Othello e Desdemona, e o bom conselho do fino Iago: «Mette dinheiro na bolsa.» Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no theatro a charada habitual que os periodicos lhe dão, porque os ultimos actos explicariam o desfecho do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:
Ella amou o que me affligira,
Eu amei a piedade della.
[LXXIII]
O contra-regra.
O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu proprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em scena, dá-lhes as cartas e outros objectos, e executa dentro os signaes correspondentes ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, representou-se ahi, em não sei que theatro, um drama que acabava pelo juizo final. O principal personagem era Ashaverus, que no ultimo quadro concluia um monologo por esta exclamação: «Ouço a trombeta do archanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: «O piston! o piston! o piston!» O publico ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do archanjo, um gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor, é o piston do archanjo!»
Assim se explicam a minha estada debaixo da janella de Capitú e a passagem de um cavalleiro, um dandy, como então diziamos. Montava um bello cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda, a direita á cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atraz; todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavallo. Relê Alencar: «Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de theatro de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um cavallo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada no Cattete, alugara um cavallo por trez mil reis... Trez mil reis! tudo se perde na noite dos tempos!