[LXXXI]

Uma palavra.

Assim contado o que descobri mais tarde, posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. Agora se entenderá que ella me dissesse, no primeiro sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capitú estava na rua dos Invalidos, com Sinhásinha Gurgel.

—Porque não vaes vel-a? Não me disseste que o pae de Sancha te offereceu a casa?

—Offereceu.

—Pois então? Mas é se queres. Capitú devia ter voltado hoje para acabar um trabalho commigo; certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá.

—Talvez ficassem namorando, insinuou prima Justina.

Não a matei por não ter a mão ferro nem corda, pistola nem punhal; mas os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam supprido tudo. Um dos erros da Providencia foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Os olhos bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles faria parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingança prompta, com este accressimo que, para desnortear a justiça, os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a victima. Prima Justina escapou aos meus; eu é que não escapei ao effeito da insinuação, e no domingo, ás onze horas, corri á rua dos Invalidos.

O pae de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava enferma; caira na vespera com uma febre, que se ia aggravando. Como elle queria muito á filha, pensava já vel-a morta, e annunciou-me que se mataria tambem. Eis aqui um capitulo funebre como um cemiterio, mortes, suicidios e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz clara e ceu azul. Foi Capitú que os trouxe á porta da sala, vindo dizer ao pae de Sancha que a filha o mandara chamar.