—Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe que meu filho Manduca morreu?
—Morreu?
—Morreu ha meia hora, enterra-se amanhã. Mandei recado a sua mãe agora mesmo, e ella fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre doe. Que vida que elle teve!... Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande vel-o...
Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto. Quiz responder que não, que não queria ver o Manduca, e fiz até um gesto para fugir. Não era medo; n'outra occasião póde ser até que entrasse com facilidade e curiosidade, mas agora ia tão contente! Ver um defuncto ao voltar de uma namorada... Ha cousas que se não ajustam nem combinam. A simples noticia era já uma turvação grande. Às minhas ideias de ouro perderam todas a côr e o metal para se trocarem em cinza escura e feia, e não distingui mais nada. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa, mas provavelmente não falei por palavras claras, nem sequer humanas, porque elle, encostado ao portal, abria-me espaço com o gesto, e eu, sem alma para entrar nem fugir, deixei ao corpo fazer o que pudesse, e o corpo acabou entrando.
Não culpo ao homem; para elle, a cousa mais importante do momento era o filho. Mas tambem não me culpem a mim; para mim, a cousa mais importante era Capitú. O mal foi que os dous casos se conjugassem na mesma tarde, e que a morte de um viesse metter o nariz na vida do outro. Eis o mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer, nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. Porque morrer exactamente ha meia hora? Toda hora é apropriada ao obito; morre-se muito bem ás seis ou sete horas da tarde.
[LXXXV]
O defuncto.
Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. A loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as janellas da área estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando; á porta da alcova duas creanças olhavam espantadas para dentro, com o dedo na bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...
Suspendamos a penna e vamos á janella espairecer a memoria. Realmente, o quadro era feio, já pela morte, já pelo defuncto, que era horrivel... Isto aqui, sim, é outra cousa. Tudo o que vejo lá fóra respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma carroça, a gallinha que marisca no chão da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a palmeira que investe para o ceu, e finalmente aquella torre de egreja, apesar de não ter musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no becco empina um papagaio de papel, não morreu nem morre, posto tambem se chame Manduca.