A sege.

Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou no cerebro, como se estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancella. Ouvi de memoria as palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti um instante; sim, podia ir ao enterro, pediria a minha mãe que me alugasse um carro...

Não cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o gosto da conducção. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia, e á missa, se chovia. Era uma velha sege de meu pae, que ella conservou o mais que poude. O cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege, quando me via á poria, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo:

—Pae João vae levar nhonhô!

E era raro que eu não lhe recommendasse:

—João, demora muito as bestas; vae devagar.

—Nhã Gloria não gosta.

—Mas demora!

Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque ella não permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fóra.

—Senta, Bentinho!