—Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a infestar-me a casa, que é o diabo. Vamos ver.

Capitú quiz tambem ver o filho; acompanhei-os. Effectivamente, era um gato e um rato, lance banal, sem interesse nem graça. A unica circumstancia particular era estar o rato vivo, esperneando, e o meu pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que sentiu mais gente, dispoz-se a correr; o menino, sem tirar-lhe os olhos de cima, fez-nos outro signal de silencio; e o silencio não podia ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas aqui a ponho outra vez, não só por significar a totalidade do silencio, mas tambem porque havia naquella acção do gato e do rato alguma cousa que prendia com ritual. O unico rumor eram os ultimos guinchos do rato, aliás frouxissimos; as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. Os outros nem tiveram tempo de atalhar-me, Ezequiel ficou abatido.

—Ora, papae!

—Que foi? A esta hora o rato está comido.

—Pois sim, mas eu queria ver.

Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe graça.


[CXI]

Contado depressa.

Achei-lhe graça, e não lh'a nego ainda agora, apesar do tempo passado, dos successos occorridos, e da tal ou qual sympathia ao rato que acho em mim; teve graça. Não me pesa dizel-o; os que amam a natureza como ella quer ser amada, sem repudio parcial nem exclusões injustas, não acham nella nada inferior. Amo o rato, não desamo o gato. Já pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são incompativeis. Em verdade, um roe-me os livros, outro o queijo; mas não é muito que eu lhes perdoe, se já perdoei a um cachorro que me levou o descanço em peores circumstancias. Contarei o caso depressa.