Escobar concordou commigo, e insinuou que alguma vez as creanças que se frequentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei de cabeça, como me succedia nas materias que eu não sabia bem nem mal. Tudo podia ser. O certo é que elles se queriam muito, e podiam acabar casados, mas não acabaram casados.


[CXVIII]

A mão de Sancha.

Tudo acaba, leitor; é um velho truismo, a que se póde accrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes faceis; ao contrario, a ideia de que um castello de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, difficilmente se despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume daquellas construcções quasi eternas.

O nosso castello era solido, mas um domingo... Na vespera tinhamos passado a noite no Flamengo, não só os dous casaes inseparaveis, como ainda o aggregado e prima Justina. Foi então que Escobar, falando-me á janella, disse-me que fossemos lá jantar no dia seguinte; precisavamos falar de um projecto em familia, um projecto para os quatro.

—Para os quatro? Uma contradança.

—Não. Não és capaz de adivinhar o que seja, nem eu digo. Vem amanhã.

Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa, ao canto da janella. Quando o marido saiu, veiu ter commigo. Perguntou-me de que é que falaramos; disse-lhe que de um projecto que eu não sabia qual fosse; ella pediu-me segredo, e revelou-me o que era: uma viagem á Europa dalli a dous annos. Disse isto de costas para dentro, quasi suspirando. O mar batia com grande força na praia; havia ressaca.

—Vamos todos? perguntei por fim.