[CXX]
Os autos.
Na manhã seguinte accordei livre das abominações da vespera; chamei-lhes allucinações, tomei café, percorri os jornaes e fui estudar uns autos. Capitú e prima Justina sairam para a missa das nove, na Lapa. A figura de Sancha desappareceu inteiramente no meio das allegações da parte adversa, que eu ia lendo nos autos, allegações falsas, inadmissiveis, sem apoio na lei nem nas praxes. Vi que era facil ganhar a demanda; consultei Dalloz, Pereira e Souza...
Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Era uma bella photographia tirada um anno antes. Estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita mettida ao peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatoria, escripta embaixo, não nas costas do cartão: «Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.» Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquella manhã, e espancaram de todo as recordações da vespera. Naquelle tempo a minha vista era boa; eu podia lel-as do logar em que estava. Tornei aos autos.
[CXXI]
A catastrophe.
No melhor delles, ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou, soaram palmas, golpes na cancella, vozes, acudiram todos, acudi eu mesmo. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:
—Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.
Não disse mais nada, ou eu não lhe ouvi o resto. Vesti-me, deixei recado a Capitú e corri ao Flamengo.