O dia de sabbado.

A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Tambem nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Sai, suppondo deixar a ideia em casa; ella veiu commigo. Cá fóra tinha a mesma côr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse com ellas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as atra vez della, com a côr mais pallida que de costume, e sem se demorarem nada.

Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei uma substancia, que não digo, para não espertar o desejo de proval-a. A pharmacia falliu, é verdade; o dono fez-se banqueiro, e o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior, porque o premio da loteria gasta-se, e a morte não se gasta. Fui a casa de minha mãe, com o fim de despedir-me, a titulo de visita. Ou de verdade ou por illusão, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, minha mãe menos triste, tio Cosme esquecido do coração, prima Justina da lingua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mão do projecto. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, ou prender aquella hora a mim mesmo...


[CXXXV]

Othello.

Jantei fóra. De noite fui ao theatro. Representava-se justamente Othello, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assumpto, e estimei a coincidencia. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço,—um simples lenço!—e aqui dou materia á meditação dos psychologos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar á observação de que um lenço bastou a accender os ciumes de Othello e compor a mais sublime tragedia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os proprios lençóes; alguma vez nem lençóes ha, e valem só as camisas. Taes eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, á medida que o mouro rolava convulso, e Iago distilava a sua calumnia. Nos intervallos não me levantava da cadeira; não queria expôr-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quasi todas nos camarotes, emquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquellas não teria amado alguem que jazesse agora no cemiterio, e vinham outras incoherencias, até que o panno subia e continuava a peça. O ultimo acto mostrou-me que não eu, mas Capitú devia morrer. Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras amorosas e puras, e a furia do mouro, e a morte que este lhe deu entre applausos freneticos do publico.

—E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;—que faria o publico, se ella devéras fosse culpada, tão culpada como Capitú? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extincção...

Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei, é verdade, um quasi nada, mas o bastante para ir até á manhã. Vi as ultimas horas da noite e as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores, as primeiras carroças, os primeiros ruidos, os primeiros albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. Não tornaria a contemplar o mar da Gloria, nem a serra dos Orgãos, nem a fortaleza de Santa-Cruz e as outras. A gente que passava não era tanta, como nos dias communs da semana, mas era já numerosa e ia a algum trabalho, que repetiria depois; eu é que não repetiria mais nada.

Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante-pé, e metti-me no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida a Capitú. Nenhuma das outras era para ella; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso. O segundo continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer.