[CXLII]
Uma santa.
Entenda-se que, se nas viagens que fiz á Europa, José Dias não foi commigo, não é que lhe faltasse vontade; ficava de companhia a tio Cosme, quasi invalido, e a minha mãe, que envelheceu depressa. Tambem elle estava velho, posto que rijo. Ia a bordo despedir-se de mim, e as palavras que me dizia, os gestos de lenço, os proprios olhos que enxugava eram taes que me commoviam tambem. A ultima vez não foi o bordo.
—Venha...
—Não posso.
—Está com medo?
—Não; não posso. Agora, adeus, Bentinho, não sei sé me verá mais; creio que vou para a outra Europa, a eterna...
Não foi logo; minha mãe embarcou primeiro. Procura no cemiterio de S. João Baptista uma sepultura sem nome, com esta unica indicação: Uma santa. É ahi. Fiz fazer essa inscripção com alguma difficuldade. O esculptor achou-a exquisita; o administrador do cemiterio consultou o vigario da parochia; este ponderou-me que as santas estão no altar e no ceu.
—Mas, perdão, atalhei, eu não quero dizer que naquella sepultura está uma canonisada. A minha ideia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. Tanto é assim que, sendo a modestia uma dellas, desejo conserval-a postuma, não lhe escrevendo o nome.
—Todavia, o nome, afiliação, as datas...