Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu azul e claro. José Dias soergueu-se e olhou para fóra; após alguns instantes, deixou cair a cabeça, murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra que proferiu neste mundo. Pobre José Dias! Porque hei de negar que chorei por elle?


[CXLIV]

Uma pergunta tardia.

Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo, mas não é provavel. Tenho-me feito esquecer. Móro longe e saio pouco. Não é que haja effectivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho Novo, comquanto reproduza a de Matacavallos, apenas me lembra aquella, e mais por effeito de comparação e de reflexão que de sentimento. Já disse isto mesmo.

Hão de perguntar-me por que razão, tendo a propria casa velha, na mesma rua antiga, não impedi que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A pergunta devia ser feita a principio, mas aqui vae a resposta. A razão é que, logo que minha mãe morreu, querendo ir para lá, fiz primeiro uma longa visita de inspecção por alguns dias, e toda a casa me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto, como outr'ora, tinha agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava do intruso. Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que alli deixasse, e não achei nenhum. Ao contrario, a ramagem começou a sussurrar alguma cousa que não entendi logo, e parece que era a cantiga das manhãs novas. Ao pé dessa musica sonora e jovial, ouvi tambem o grunhir dos porcos, especie de troça concentrada e philosophica.

Tudo me era extranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e, mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta reproducção por explicações que dei ao architecto segundo contei em tempo.


[CXLV]

O regresso.