—Estive aqui ao pé, conversando com D. Fortunata, e distraí-me. É tarde, não é? Mamãe perguntou por mim?

—Perguntou, mas eu disse que você já tinha vindo.

A mentira espantou-me, não menos que a franqueza da noticia. Não é que prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida, bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha mãe, e tambem por interesse; minha mãe queria ter uma senhora intima ao pé de si, e antes parenta que extranha.

Passeámos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampião. Quiz saber se eu não esquecera os projectos ecclesiasticos de minha mãe, e dizendo-lhe eu que não, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha á vida de padre. Respondi esquivo:

—Vida de padre é muito bonita.

—Sim, é bonita; mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre, explicou rindo.

—Eu gósto do que mamãe quizer.

—Prima Gloria deseja muito que você se ordene, mas ainda que não desejasse, ha cá em casa quem lhe metta isso na cabeça.

—Quem é?

—Ora, quem! Quem é que hade ser? Primo Cosme não é, que não se importa com isso; eu tambem não.