Enfim, peguei dos livros e corri á licção. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, allegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou commigo.
O padre Cabral recebera na vespera um recado do internuncio; foi ter com elle, e soube que, por decreto pontificio, acabava de ser nomeado protonotario apostolico. Esta distincção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o titulo com admiração; era a primeira vez que elle soava aos nossos ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, bispos, nuncios, e internuncios; mas que era protonotario apostolico? O padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da curia, mas as honras delle. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete, e repetia:
—Protonotario apostolico!
E voltando-se para mim:
—Prepara-te, Bentinho; tu pódes vir a ser protonotario apostolico.
Cabral ouvia com gosto a repetição do titulo. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do titulo como que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para ligal-o ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizel-o todo, bastava que lhe chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se apostolico.
—Protonotario Cabral.
—Sim, tem razão; protonotario Cabral.
—Mas, Sr. protonotario,—acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do titulo,—isto o obriga a ir a Roma?
—Não, D. Justina.